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Sociedade

Sobre o há que

13/09/2026 10:45 3 min lectura 246 visualizações

O "há que" é, ante tudo, um exercício de autoridade sem custo. Permite ocupar o lugar de quem vê mais longe, de quem diagnostica com lucidez, sem jamais assumir o peso de resolvê-lo. É o cacicado mais barato que existe: não é necessário liderar nada para falar como se liderasse tudo. Basta com apontar a direção correta e esperar, confortavelmente, que outro caminhe.

Nas famílias, o "há que" se disfarça de sabedoria de sobremesa. Há que cuidar mais dos avós, há que se juntar com mais frequência, há que falar uma vez por todas de quem vai consertar o portão. E no entanto, quando chega o momento de coordenar uma visita, de manter um cuidado semanal, de pegar o telefone e iniciar a conversa incômoda, o coro de vozes que reclamava se dissolve. Fica, como sempre, a mesma pessoa se encarregando enquanto o resto continua diagnosticando da distância prudente do "há que".

No trabalho passa o mesmo, ainda que com vocabulário de gerência. Há que melhorar a comunicação interna, há que capacitar a equipe, há que revisar os processos. Alguém se oferece para liderar essa capacitação? Alguém coloca a primeira reunião no calendário? Quase nunca. O "há que" corporativo é um memorando flutuante que ninguém assina, uma responsabilidade que se menciona em cada reunião e que jamais encontra nome e sobrenome ao pé.

E nas organizações sociais e políticas – aqui é onde o "há que" dói mais porque supostamente existem precisamente para transformar algo – o fenômeno alcança sua forma mais descarada. Há que nos formarmos, há que sair a visitar de porta em porta, há que construir a presença territorial. Frases que se repetem em cada plenária com a solenidade de uma consigna, enquanto a sala se esvazia de braços disponíveis no momento exato em que há que distribuir tarefas concretas. Não é acaso uma forma de duplo discurso exigir compromisso coletivo quando você tem a palavra e desaparecer quando toca colar cartazes, armar planilhas ou comprar o cafezinho para a reunião? Não é a versão mais hipócrita da liderança a de quem diagnostica com precisão estratégica, mas jamais encabeza uma única ação?

Porque o problema de fundo não é a preguiça individual (isso seria demasiado simples, e, como sabem quem compartilha comigo este espaço dominical, aqui gostamos de nos complicar)... Trata-se mais de uma cultura inteira que premia o diagnóstico acima da ação. Falar do que há que fazer dá prestígio; fazê-lo, em contrapartida, expõe, cansa, e muitas vezes não se nota. Por isso sobram caciques com discurso e faltam mãos que sustentem a tarefa do dia a dia, que poucas vezes se reconhece e que, além disso, quase sempre a realiza uma mulher.

Não faz falta mais gente que saiba o que há que fazer. Já o sabemos quase todos, no fundo. Faz falta gente disposta a dizer, em primeira pessoa e sem esperar aplausos, a frase que realmente compromete: Menos há que, e mais vou a.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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