Estado gastou USD 361 milhões em 4 anos com seguros privados
Investigação revela concentração de recursos públicos em medicina prepaga para funcionários enquanto população sem cobertura cresce
Enquanto médicos de todo o país reivindicam melhores salários e condições de trabalho, além de denunciarem deficiências nos serviços públicos de saúde, uma investigação sobre a evolução do sistema sanitário paraguaio coloca em foco os recursos destinados à contratação de seguros médicos privados para funcionários públicos.
Segundo a análise da pesquisadora Patricia Lima Pereira, entre 2020 e 2024, o Estado paraguaio destinou USD 361,6 milhões à compra de seguros médicos privados (medicina prepaga) para funcionários públicos.
Em contrapartida, outro estudo sobre a evolução do acesso à saúde no Paraguai indica que, em 2024, 71,4% da população não contava com nenhum seguro médico.
A investigação está incluída no livro Economía, Sociedad y Estado: 35 años de democracia en Paraguay, publicado pelo Centro de Análisis y Difusión de la Economía Paraguaya (Cadep), no capítulo "Trayectorias divergentes: Un análisis centrado en actores del sistema de salud y la protección social en Paraguay".
Lima denomina este processo como "a reforma de saúde oculta". Sua análise sustenta que, desde 2018, ocorreu uma transformação na estrutura do gasto sanitário caracterizada pela crescente participação do setor privado na prestação de serviços financiados com recursos públicos.
"Desde 2018, o Estado paraguaio tem financiado uma mercantilização sustentada do acesso à saúde", assinala.
A autora identifica dois mecanismos principais: por um lado, a terceirização de serviços médicos e, por outro, a compra de seguros médicos privados para funcionários públicos.
Segundo o estudo, ambas as modalidades representam atualmente um montante equivalente a aproximadamente 10% do orçamento de Saúde.
A análise compara o investimento estatal direto em infraestrutura, equipamento e tecnologia com os recursos destinados à compra e externalização de serviços privados. A autora sustenta que este processo foi particularmente visível após a pandemia de Covid-19.
A análise das contratações públicas demonstra que entre 2020 e 2024 foram destinados USD 361.557.451 a seguros médicos privados para funcionários públicos.
O gasto esteve altamente concentrado. 15 instituições, de um total de 65, absorveram 80% do montante.
Um negócio concentrado.
A investigação também analisa quem recebeu esses recursos. Em 2020, ano que o estudo identifica como o de maior volume de adjudicações, mais de 90% dos fundos destinados a seguros médicos se concentraram em seis empresas, de um total de 14 prestadoras autorizadas.
Entre elas encontram-se Reyva SA, com USD 13,9 milhões, e Santa Clara SA, com USD 10,4 milhões.
Outra das empresas destacadas é Promed, que recebeu adjudicações por USD 8,7 milhões em 2020.
O estudo também identifica Asismed, Medi Plan e SIME entre as principais empresas beneficiadas.
Um dos pontos centrais da análise de Lima é que ter um seguro privado não necessariamente garante uma cobertura integral.
A investigação sustenta que as apólices podem conter restrições frente a determinadas doenças crônicas ou tratamentos de alta complexidade.
Adverte que quando um funcionário desenvolve uma patologia complexa que não está coberta por seu seguro, pode terminar novamente no sistema público ou enfrentando um gasto elevado do próprio bolso.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.