O superendividamento limita o acesso à moradia no Paraguai
O desafio do acesso habitacional
O acesso a uma moradia digna representa um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de um país e um indicador chave do bem-estar de sua população. O déficit habitacional tem sido um desafio que as políticas públicas tentaram mitigar por meio de diversos programas de financiamento estatal e parcerias com o setor privado.
Barreira estrutural: o superendividamento
Apesar do crescimento do sistema financeiro paraguaio, a maioria dos cidadãos de classe média e trabalhadora não se qualifica para obter um empréstimo hipotecário. Esta situação responde a um problema estrutural: o superendividamento. O crescimento do crédito de consumo corrói a capacidade de endividamento de longo prazo das famílias, funcionando como a principal barreira de entrada ao mercado imobiliário formal.
Magnitude do crédito de consumo
Ao encerramento do primeiro quadrimestre de 2026, o saldo de empréstimos financiados por instituições bancárias atingiu USD 30.000 milhões, de acordo com dados do Banco Central do Paraguai (BCP). O crédito de consumo lidera a demanda de empréstimos, representando 19% do total do sistema financeiro, o que significa um aumento de 40% em comparação com o mesmo período de 2025.
Este segmento financia despesas pessoais, viagens, estudos, aquisição de bens não duráveis e, de manera significativa, o financiamento por meio de cartões de crédito.
Pressão sobre os rendimentos laborais
Os cartões de crédito refletem as pressões inflacionárias e de consumo sobre os rendimentos laborais. O crescimento acelerado do crédito de consumo evidencia uma dependência cada vez maior do endividamento de curto prazo e taxas generalmente mais altas para sustentar o padrão de vida ou enfrentar despesas correntes. Esta carga financeira de curto prazo gera incompatibilidade com os requisitos exigidos para se qualificar a um crédito hipotecário.
Impacto em programas habitacionais
O aumento nos níveis de consumo a crédito se materializa diretamente na avaliação de programas habitacionais impulsionados pelo Governo. 60% das solicitações de crédito para moradia são rejeitadas. Em outras palavras, apenas quatro em cada dez paraguaios que iniciam o trâmite conseguem superá-lo.
De acordo com registros da Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD), 35% das rejeições se devem exclusivamente ao "nível de endividamento elevado". A isso se soma 25% de solicitantes que descumprem políticas de instituições financieras como inadimplência ou antecedentes negativos de pagamento.
Consequências no desenvolvimento urbano
A incapacidade sustentada das classes médias e trabalhadoras de acessar moradias próprias contribui ao crescimento urbano desordenado e expande a mancha urbana em direção a uma periferia cada vez mais distante. Esta situação exacerba a desigualdade patrimonial e encarece os custos logísticos do cidadão. Além disso, limita a expansão do setor da construção de moradias, que possui elevado efeito multiplicador na economia.
Necessidade de políticas integrais
A combinação entre crédito de consumo elevado e demanda habitacional persistentemente insatisfeita coloca desafios para a política pública. O Paraguai precisa articular políticas integrais que vão além da oferta de créditos. É necessário implementar planos de consolidação de dívidas e políticas laborais e produtivas que melhorem e estabilizem os rendimentos, além de formalizar o trabalho.
Adicionalmente, é fundamental melhorar os serviços públicos para que as famílias destinem seus recursos à moradia e não a compensar a má qualidade destes serviços. Sem estas mudanças, o crédito continuará direcionado ao consumo, enquanto a moradia própria e de qualidade seguirá sendo de acesso limitado para a maioria dos paraguaios.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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