O culto a São Sebastião: como um santo do século III brutalmente torturado se tornou um ícone gay
Sebastião, um soldado romano assassinado por suas crenças cristãs, tem sido um herói para os homens homosexuais ao longo dos séculos, desde Oscar Wilde até Keith Haring. Contamos por que.
O termo "ícone gay", carregado de emoção e significado, é frequentemente aplicado a celebridades femininas resilientes como Judy Garland (que enfrentou grandes desafios), Cher (com seu estilo extravagante) e Madonna (incansável).
Quando a cantora britânica Dusty Springfield faleceu em 1999, perguntaram a seu colega Neil Tennant, do Pet Shop Boys, por que sua amiga e colaboradora tinha se tornado um "ícone gay". A resposta de Tennant, conforme lembrou em uma entrevista de 2024, foi depreciativa: "Chamá-la de ícone gay é simplesmente marginalizá-la. É dizer: 'Só interessa para a galera gay'".
Mas embora Tennant tivesse razão com respeito a Springfield, alcançar o status de "ícone gay" também pode ser motivo de celebração e subversão.
E esse é, sem dúvida, o caso de São Sebastião, um soldado romano que foi assassinado por suas crenças religiosas no ano 288 depois de Cristo, durante uma perseguição contínua contra os cristãos por parte do imperador Diocleciano.
Sebastião é venerado como santo tanto na Igreja Católica quanto na Ortodoxa Oriental, instituições que divulgam há muito tempo a lenda de que foi assassinado a golpes após repreender o imperador Diocleciano por suas ideias pagãs "pecaminosas".
No entanto, foi um ataque anterior contra Sebastião por parte dos sequazes do imperador, no qual o amarraram a uma árvore e o acribillaram a flechadas, o que transformou esse mártir enigmático em uma musa constante para artistas renomados — existem no mínimo 14 representações de Sebastião na coleção da National Gallery de Londres — e em um símbolo perene do desejo homosexual.
O surgimento de Sebastião como ícone gay remonta ao Renascimento, um período de profunda transformação cultural entre os séculos XIV e XVII, quando artistas proeminentes como Guido Reni, El Greco e Sandro Botticelli representaram seu corpo atravessado por flechas com um sutil trasfundo homoerótico.
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Daniel Fountain, professor de História da Arte e Cultura Visual na Universidade de Exeter, explica à BBC News que os historiadores da arte costumam interpretar essas flechas como um símbolo fálico de sexo penetrativo e homosexualidade.
Clare Barlow, diretora do Museu de História do Povo e curadora da exposição "Arte Britânica Queer 1861-1967" do museu e galeria Tate Britain em 2017, considera que as flechas adquirem um enorme significado psicossexual em muitas dessas pinturas, independentemente da intenção do artista.
"E o fato de que Sebastião seja representado frequentemente como um jovem de grande beleza apenas o torna ainda mais fascinante", acrescenta.
Durante o Renascimento, quando a tolerância com relação à homosexualidade era muito menor, as representações artísticas do corpo ágil e desejável de Sebastião entraram em moda e se mostraram fascinantemente ambíguas.
Assim como a obra-prima de Michelângelo do século XVI, o Davi, que cristalizou um ideal de beleza masculina em mármore, as pinturas desse belo e perseguido santo serviram como um veículo aceitável para o desejo homosexual masculino.
No entanto, Barlow assinala que "muitas vezes é muito difícil determinar se essa era a intenção explícita de um artista em particular, ou se foi simplesmente uma interpretação que fez um público ávido por representação".
Em alguns casos, pode se tratar de uma combinação de ambas.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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