Dia do Folclore: identidade nacional e transformação cultural no Paraguai
Uma celebração de identidade nacional
Cada 22 de agosto, o Paraguai e o mundo se unem para celebrar o Dia Mundial do Folclore, uma data oficializada pela Unesco em homenagem ao momento em que o escritor britânico John William Thoms utilizou pela primeira vez a palavra "folklore" em 1846.
Na terra guarani, essa comemoração cobra um significado especial, já que convida a abraçar com orgulho a riqueza da identidade nacional: as leyendas que habitam a memória coletiva, os compassos inconfundíveis da polca e da guarania, a sabedoria popular transmitida de geração em geração, as comidas típicas e o uso cotidiano do idioma guarani.
Folclore como arena de disputa
Além da celebração tradicional, surgem interrogantes fundamentais sobre o papel do folclore na construção da identidade nacional. Quais práticas culturais formam hoje parte da identidade individual e coletiva dos paraguaios? A cultura folclórica paraguaia está perdendo terreno frente às novas tendências globais ou simplesmente está mudando de forma? Quais expressões culturais se enfraqueceram ou se transformaram nas últimas décadas?
Para o sociólogo Paulo González Paciello, mestre em pesquisa em Ciências Sociais pela Flacso Paraguai, algumas práticas desaparecem, outras sobrevivem, algumas se transformam e outras emergem. De acordo com sua análise, o folclore pode ser entendido como uma arena de disputa pela memória, identidade e futuro. Isso coloca uma pergunta central: qual Paraguai queremos lembrar ou representar?
Uma cultura plural e fragmentada
González Paciello assinala que, longe de se tratar de um bloco homogêneo que simplesmente se reproduz, a cultura paraguaia é um terreno em constante tensão onde distintos atores possuem capacidades desiguais para definir o que se apresenta como tradicional, aceitável ou desejável.
A experiência de um jovem de Assunção conectado permanentemente com circuitos culturais globais difere significativamente da de uma pessoa em uma comunidade rural, assim como de alguém que vive em uma zona fronteiriça com maior contato diário com outras nacionalidades.
"A identidade é mais plural, fragmentada e situada", propõe González Paciello, acrescentando que nessa diversidade existem inúmeras expressões culturais e folclóricas que são válidas e representam "o paraguaio".
Ferramentas de transformação cultural
O sociólogo identifica que os meios de comunicação, a política, a religião, a indústria cultural, a música, os eventos massivos, as redes sociais, a escola e as próprias famílias funcionam como ferramentas para sustentar ou modificar as normas sociais que sustentam o folclore e a cultura.
Uma canção, uma festa, um programa de televisão, uma publicidade, um evento massivo ou até mesmo uma política cultural podem reforçar determinados imaginários sobre o que significa ser paraguaio, de acordo com quais normas sociais se naturalizam ou se criticam.
"Esses mesmos espaços podem ser utilizados para disputar esses imaginários", assinala González Paciello.
Essa perspectiva convida a refletir sobre como a sociedade paraguaia constrói, mantém e transforma sua identidade cultural em um contexto de constante mudança e múltiplas influências.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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