Urge um plano para se antecipar à chegada de El Niño
Vulnerabilidade ante o fenômeno climático
O recente alerta da Oficina Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA) que aponta pelo menos 60% de probabilidade de desenvolvimento do fenômeno de El Niño durante a primavera coloca o país diante de um cenário de forte vulnerabilidade econômica e social em múltiplos âmbitos.
As projeções antecipam inundações intensas e, em alguns momentos, períodos de seca, danos severos na infraestrutura pública e privada, assim como disrupcões críticas nos sistemas produtivos. Isto inclui perdas de produção com consequências na inflação de alimentos, com o qual os efeitos chegariam ao núcleo da qualidade de vida da população.
Impacto na estabilidade econômica
A viabilidade econômica, a estabilidade dos preços de consumo e o nível de descontentamento social dependem da capacidade de implementar medidas antes de que o impacto climático se materialize.
A destruição da infraestrutura física possui um duplo efeito negativo. Por um lado, exige a realocação de recursos públicos para a reconstrução de emergência, hoje inexistentes pela carga da dívida pública. Por outro lado, interrompe os fluxos comerciais locais e internacionais, isolando regiões produtivas inteiras e elevando os custos de transporte e logística.
A paralisia logística se traduz em perdas de competitividade. A incerteza climática freia o investimento privado e precariza o emprego formal e informal. A solicitação de planos de contingência por parte dos sindicatos econômicos e dos governos locais não responde a uma simples demanda setorial, mas ao reconhecimento de que a falta de preparação diante de um choque de oferta dessa magnitude pode impulsionar as economias regionais a uma recessão econômica.
Vulnerabilidade do setor agrícola
Embora os danos à infraestrutura em larga escala capturem a atenção dos manchetes econômicas, o núcleo da vulnerabilidade socioeconômica reside no setor agrícola, especificamente na agricultura familiar. Os pequenos produtores e camponeses são quem opera com as margens de lucro mais estreitas e possui a menor capacidade de adaptação financeira e tecnológica diante de eventos climáticos extremos. O excesso de precipitações e as inundações destroem cultivos hortícolas, erosionam os solos férteis, proliferam pragas e danificam a pequena produção pecuária.
A afetação da agricultura familiar tem um impacto direto na segurança alimentar urbana através da inflação de alimentos. A inflação de alimentos é um dos fenômenos econômicos mais regressivos, já que penaliza com maior severidade os estratos de menores rendas, quem destinam um percentual significativamente mais alto de seus recursos exclusivamente à alimentação. A vulnerabilidade do campesinato implica a erosão do poder aquisitivo da população geral e o risco de incremento da pobreza.
Necessidade de um plano integral
É imperativo construir um plano de mitigação e adaptação consensuado que integre as autoridades nacionais, os governos departamentais, o setor empresarial e as organizações campesinas. Ao democratizar o desenho da estratégia, o Estado não apenas protege a produção, como também fortalece o tecido social e a confiança nas instituições. Sustentar a estabilidade econômica em tempos de crise climática requer uma governança que compreenda que a capacidade de resiliência não se define em um decreto nem em uma lei de emergência, mas em um trabalho conjunto dentro de uma governança antecipatória aos efeitos negativos.
O alerta da NOAA sobre o advento de El Niño constitui um chamado à ação institucional que as autoridades não podem postergar nem subestimar. Os custos da inação ou de uma resposta improvisada superam amplamente os investimentos requeridos para uma preparação adequada.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.