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Paraguai

Mães, mestras e as furias do interesse privado

31/07/2026 13:45 4 min lectura 29 visualizações

Ou seja: as mestras deveriam saber vidas de heróis civis, seguramente, mas acima de tudo militares; deveriam saber a origem e a natureza divinas das coisas; deveriam saber uma ética kantiana dos deveres e um higienismo cívico-burguês.

O que Speratti acreditava que as mestras paraguaias do fim do século XIX deveriam saber é uma mistura de muita educação religiosa e pouco laicismo, algo liberal, uma onde os dois primeiros elementos representam a continuidade da antiga ordem colonial e monárquica (autoridade terrena e divina reunidas), enquanto os dois restantes têm a influência dos ideais do liberalismo ilustrado do pós-guerra (direitos e obrigações).

Esta mistura paraguaia entre colonialismo e republicanismo, entre tradição e modernidade, se sintetiza no citado discurso de Speratti. Ali traçou uma linha direta entre a mãe e a mestra. Já o sabemos, mas digamo-lo: uma profissão que, para as elites tanto conservadoras como liberais do Rio da Prata no fim do século XIX, não rompia com o mandato doméstico "natural": as mulheres são mães e mestras por natureza divina e cívica.

Este imperativo categórico de Speratti é a síntese a que chegaram as elites sapientes paraguaias entre 1880 e 1992, liberais e republicanas; mas a contragosto, não sem dar sangrenta oposição, também a casta eclesiástica. O criacionismo deixou de ser o saber dominante entre os deveres das mestras e dos mestres, mas apenas aparentemente. Sabe-se que a religião não abandonou a educação "reformada". Este é o pragmatismo cultural e político que tem rango constitucional desde 1992, como "formador" da nação: uma burocracia feligresa e militante. O Estado paraguaio é católico, ultimamente pentecostalista. Ou seja, é conservador, mas agora além disso extremista de direita se levamos em conta a facção pró-israelense e trumpista que governa. O Paraguai não é uma teocracia apenas por falta de entusiasmo reformador de sua dirigência centro-direitista e neofascista.

Entre aqueles "deveres de ser" de Speratti, domina esta dimensão ainda divina dos saberes como tradição e costume. Não se aprofundou no mais liberal e republicano do decálogo sperattiano nos últimos trinta e cinco anos (muito menos em outras vertentes pedagógicas mais libertadoras como as de Paulo Freire ou Humberto Maturana). Faz trinta e cinco anos foi quando se deu pela primeira vez a oportunidade histórica de fazer isto como sociedade. Mas apesar dos maquiagens modernistas da educação e da reforma institucional do pós-stronismo, ultimamente atacados pelos cínicos defensores de Deus, da família e da pátria, segue governando o Paraguai a reação que governou durante quase trezentos anos em nome do rei espanhol e do Papa de Roma, essa coisa borbônica e anticomunera hegemonizou a política colonial sob as mais diversas máscaras.

A este conúbio de autoridades culturais apenas aparentemente em conflito, mais ou menos capitalistas segundo os casos, Karl Marx chama no "Prólogo à primeira edição" de O capital, "as furias do interesse privado". Por exemplo, a fúria eclesiástica: "A Igreja Alta da Inglaterra, por exemplo, antes perdoará o ataque a trinta e oito de seus trinta e nove artigos de fé que a um trigésimo nono de suas receitas", escreveu com realismo irônico duradouro. Depois da ruptura com o papado, a High Church anglicana "conservou, diferentemente dos calvinistas e outras igrejas protestantes, o essencial da estrutura hierárquica e da liturgia da Igreja Católica", informa.

As furias do interesse privado seguem perdurando, evidentemente; como também seguem perdurando quem perdoa trinta e cinco anos de ditadura antes que o ataque a seus privilégios.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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