Uma novela que reivindica o ñe'e e o arandu do povo
Arnaldo Casco Villalba apresenta 'Tanimbu', sua segunda obra escrita integralmente em guarani
- Paulo César López
- paulo.lopez@nacionmedia.com
- Fotos: Gentileza
O escritor, promotor e pesquisador da língua guarani Arnaldo Casco Villalba apresentará no próximo dia 28 de outubro sua segunda novela escrita integralmente em guarani, intitulada 'Tanimbu'. O ato será realizado a partir das 19:00 no Centro Cultural de la República El Cabildo. Nesta entrevista, o autor resenha brevemente sua obra e analisa a atualidade e as projeções da produção literária na língua nativa.
–O que você pode nos adiantar sobre seu último romance?
–'Tanimbu' é minha nova proposta narrativa escrita integralmente em guarani após 'Tatukua', que publiquei em 2017. É uma obra que pretende ser muito mais psicológica que a anterior. Quis adentrar-me nas profundezas da mente de uma criança marcada por episódios traumáticos que condicionaram profundamente sua existência ao ponto de consumi-la completamente. Desta forma quis demonstrar como a língua guarani conta com uma infinidade de recursos linguísticos, literários e narrativos para transmitir múltiplas emoções relacionadas com a dor, a solidão, a rejeição, a tristeza, o trauma, etc. Ao mesmo tempo, 'Tanimbu' pretende ser um romance com múltiplas possibilidades de interpretação, pois relata outras histórias atravessadas pela tragédia, o fatalismo, os conflitos existenciais, a superstição, a religiosidade, o relativismo moral e religioso, etc. Ao mesmo tempo, minha proposta literária em guarani pretende levar consigo os recursos narrativos mais universais e variados possíveis, tais como o tratamento temporal, as vozes narrativas, a maior quantidade de recursos linguísticos e literários com os que conta –e em abundância– o guarani. Quer dizer, além de tentar transmitir emoções fortes com o relato, busco demonstrar que o idioma guarani goza dos recursos mais amplos e variados para expandir-se, transcender para além de suas próprias fronteiras linguístico-culturais.
–Quais são as principais satisfações e dificuldades que você teve ao escrevê-la?
–Uma das principais satisfações que experimentei durante o tempo que escrevi 'Tanimbu' foi a possibilidade de reencontrar-me, de reconectar-me com minha raiz através da palavra, e imaginar-me um mundo –ainda que seja fictício– rodeado daquele cenário, contexto, cultura, idioma, etc., que marcou profundamente meus primeiros anos de vida. A possibilidade de contribuir, ainda que um pouco, com a difusão e o fortalecimento do idioma guarani é outro fato que me enche de uma profunda alegria. Talvez como dificuldade possa mencionar os momentos de dúvidas e certos vazios que aparecem no processo da escrita; dúvidas porque em guarani é ainda incipiente o desenvolvimento da narrativa e não se conta com abundantes modelos padronizados como referências nem para a leitura nem para uma formação específica na área.
LACUNAS
–Te parece que a maioria dos paraguaios guaranifalan ainda continua sendo analfabetos em sua própria língua? Quer dizer, mesmo que se comuniquem preferentemente em guarani no dia a dia, lhes custa ler e muito mais escrever nessa língua?
–Hoje em dia temos uma população majoritária que é bilíngue oficial (guarani e castelhano), quer dizer, pessoas que já foram alfabetizadas em ambos os idiomas. De igual forma, também não se deve deixar de reconhecer que existe ainda uma enorme lacuna e desvantagem para o guarani em comparação com o castelhano.
–Quais são os principais desafios que apresenta atualmente a alfabetização em guarani em geral e a produção literária em particular?
–Quando se pretende teorizar –ou buscar culpáveis– sobre o ensino do guarani no sistema educativo se fala muito do enfoque de ensino, da falta de alfabetização em língua materna, dos materiais didáticos...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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