Sem médicos nem cura
Este é o principal problema que enfrenta um governo que busca negociar com o sindicato de médicos do Ministério da Saúde para evitar greves e renúncias, insistindo que não há recursos para aumentar-lhes o salário, quando não existe uma única dependência pública que não abrigasse funcionários que entraram por mero quinhão político e que ostentem um cargo inventado, sem a menor utilidade para o contribuinte que paga seu salário e com uma remuneração que se encontra às antípodas da realidade laboral do país.
É muito difícil pedir austeridade quando os correligionários fazem festa com o dinheiro público distribuindo-o entre seus operadores pendurados na folha de pagamento do Estado. É quase impossível sustentar argumentos sérios quando políticos sem a menor formação acadêmica incham as folhas laborais de uma hidrelétrica com salários superiores ao que ganham quatro ou cinco médicos juntos.
É a absoluta anarquia salarial do Estado e a forma grosseira como ingressaram quase três quartas partes dos mais de trezentos mil funcionários cujos salários pagamos compulsoriamente os contribuintes, que lhes tiraram toda autoridade moral a quem quer discutir em representação do governo com o único setor desses trabalhadores que necessariamente se formou. Os políticos podem alçar um semianalfabeto com um título falso de Direito e coroá-lo como chefe de um tribunal que julgue juízes e promotores, mas nenhuma conscripção partidária, nem a obsequiosidade servil de toda uma vida, nem os parentescos nem os casos amorosos inconfessáveis podem dotar do conhecimento nem da perícia a quem empunha um bisturi para extirpar um tumor ou amputar um membro necrosado.
Por suposto que há bons e maus médicos. Há casos de negligência, há erros fatais, há comerciantes da saúde e há corruptos. Mas até o mais desajeitado ou o mais néscia deles tem necessariamente um nível de formação que excede por muito o da maioria da legião que o partido meteu pela janela. Qualquer um dos médicos que fazem plantão diariamente nas trincheiras do Hospital de Trauma tem mais méritos e é mais necessário que todos os operadores juntos que hoje povoam conselhos e diretorias em centenas de escritórios públicos.
Por isso, esta greve tem outro matiz. Não é somente outro sindicato de funcionários públicos. Não é uma ala partidária em busca de um contrato coletivo de trabalho leonino, um que coloque de cabeça para baixo as finanças de uma empresa do Estado. É o recurso mais valioso de qualquer país. É o capital humano mais complexo de formar.
Esta greve tem além disso outra característica que a torna diferente. Desnuda um problema muito maior e mais intrincado: o colapso do modelo de saúde pública. Não é somente que o destinado ao investimento em saúde seja insuficiente para cobrir estas demandas salariais, é que resulta insuficiente para dar uma cobertura mínima à população em geral. Simplesmente os médicos puderam fazer o que os pacientes não: organizar-se para protestar.
Esta greve desnuda em definitiva os dois maiores fracassos deste governo e dos que o antecederam: a incapacidade de ordenar salarialmente o Estado e a de propor um modelo alternativo a este sistema de saúde que nunca funcionou.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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