Mais trabalho, mas de que tipo
Mas quando se observa com mais atenção o tipo de emprego que está sendo criado, o otimismo merece alguns matizes.
O grosso do crescimento do emprego não veio do setor assalariado formal (aquele que tem contrato, contribui para a aposentadoria e tem direitos trabalhistas claros), mas dos trabalhadores independentes, que aumentaram em quase 97.000 pessoas. Dentro desse grupo, o segmento que mais cresceu foi o dos trabalhadores por conta própria, quase 65.000 pessoas a mais que no mesmo trimestre do ano anterior.
O que é um trabalhador por conta própria no Paraguai? É o vendedor da feira, o mecânico do bairro, o designer que fatura por projeto, o encanador que consegue trabalho como pode. Não há uma única face para esta categoria, e isso é justamente o que a torna difícil de interpretar.
Em alguns contextos, o crescimento do trabalho independente reflete dinamismo econômico: Empreendedores que aproveitam oportunidades, profissionais que escolhem a autonomia, pessoas que encontram na independência uma saída digna. Em outros, é simplesmente a forma como uma economia registra aqueles que não encontraram um emprego formal e se viram como podem.
Os dados do INE sugerem que no Paraguai ambas as realidades convivem, mas a segunda pesa mais. Dos quase 2,8 milhões de ocupados fora do setor agropecuário, 1,65 milhão são informais. Os formais (aqueles que cotizam ao sistema previdenciário ou estão inscritos no RUC) são pouco mais de um milhão. Em outras palavras, para cada trabalhador formal não agropecuário, há um e meio que opera fora do sistema de proteção social.
A isso se soma outro sinal que merece atenção: A subocupação por insuficiência de tempo de trabalho, que o INE define como as pessoas que trabalham menos de 30 horas semanais, desejariam trabalhar mais e estão disponíveis para fazê-lo, subiu 0,8 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre de 2025, afetando cerca de 131.000 pessoas.
Não são desempregados em sentido estrito porque têm alguma atividade, mas tampouco têm o emprego que precisam. São pessoas que estão, de certa forma, pela metade no mercado de trabalho com um pé dentro e outro fora, gerando renda insuficiente enquanto esperam uma oportunidade que não acaba de chegar.
Quando se somam os desocupados (178.000 pessoas) e os subocupados por tempo (131.000), obtém-se que mais de 309.000 paraguaios – 9,1% da força de trabalho – ou não têm emprego ou têm um que não lhes é suficiente. Esta cifra combinada cresceu meio ponto percentual em relação ao ano anterior.
O Paraguai tem uma das taxas de desemprego mais baixas da região, e isso é um dado real e positivo, mas o desemprego, como indicador único, pode ser enganoso em economias onde a informalidade é alta quando não há seguro-desemprego nem rede de contenção, as pessoas não podem se dar ao luxo de estar desocupadas. É inquietante que uma economia cresça em ocupados, mas não em trabalhadores protegidos. Pode estar construindo sobre areia.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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