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Política

Cuidado com o microfone

Presidentes do Senado e Câmara são flagrados em conversa comprometedora sobre deputado opositor

05/07/2026 10:45 3 min lectura 7 visualizações

Basilio Bachi Núñez e Raúl Latorre, presidentes do Senado e de Deputados, respectivamente, ficaram presos naquele instante incômodo que todos tememos: falar de alguém pensando que ninguém escuta, e resulta que escuta todo o país. O tema de conversa era o deputado opositor Raúl Benítez, a quem Latorre descreveu com uma frase que já deveria estar talhada em algum monumento à sinceridade involuntária, que Benítez quer seguir o caminho de sua liderança ao martírio, em referência a Kattya González, a ex-senadora expulsa meses atrás com a cumplicidade, digamos, generosa, da Corte Suprema.

Eu não sei vocês, mas essa frase me deixou pensando vários dias. Porque "martírio" não é uma palavra que se usa por acaso. Tem uma carga religiosa e dramática importante, uma que convida a inferir que há um sacrifício esperando a quem se atreve a não aplaudir como focas. E o disseram dois dos homens mais poderosos do Legislativo, em confiança, sem saber que o aparelhinho continuava ligado, justo antes de que chegasse o presidente Santiago Peña para nos contar, mais uma vez, que tudo vai maravilhosamente.

Benítez, que não se guarda nada, respondeu com o humor que já o caracteriza: pediu que se já têm redigido o certificado de morte política, que ao menos o avisem a data, para organizar uma despedida à altura. Chegou ao informe presidencial com uma camiseta estampada com um polígrafo, como dizendo "eu já sei o que vai dizer, presidente, e já sei que não vai ser totalmente verdade". Esse nível de antecipação merece um aplauso. Ou uma guilhotina, segundo de qual lado do Congresso se olhe. Porque o que mais chama a atenção de toda essa novela – e aqui o humor fica incômodo – é que estamos falando, outra vez, de uma estrutura que trata a dissidência como doença contagiosa. Primeiro foi Kattya González, expulsa do Senado em um processo que violou seu próprio regimento e que a Corte, com uma generosidade interpretativa digna de melhor causa, ajudou a blindar. Agora o nome na lista parece ser Benítez. Quantos mais entram nessa lista de "expulsáveis" que, segundo o próprio deputado, existiria em alguma gaveta do Comando Político?

Ele mesmo comparou a cena com essas séries de narcotraficantes que tanto agrada à população: um grupo sentado em uma mesa esperando a ordem do patrão para saber a quem lhe toca. A comparação não é gratuita, o lapso dos poderosos mostrou, sem querer, como entendem seu próprio exercício do poder. Não como administração do público, mas como gestão de lealdades e castigos.

O curioso – e isso sim me faz sorrir, ainda que com a boca torta – é que nem Bachi nem Latorre se desculparam. Ninguém disse "foi uma brincadeira mal entendida", embora não haja depois contexto que salve essa frase. Continuaram mais com a agenda, como se o Paraguai inteiro não tivesse escutado exatamente o que pensam quando creem que ninguém os escuta.

E aí fica a lição da quinta-feira: em política, o que se diz em voz baixa costuma ser mais sincero que o que se grita no estrado.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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