O outro informe que nossa democracia precisa
Houve muitas críticas ao conteúdo do informe tanto de certos setores da imprensa como de políticos da oposição. Segundo os mesmos, o conteúdo do discurso estava cheio de omissões, apresentação distorcida dos dados e quase nula autocrítica.
Entretanto, a natureza mesma deste tipo de discurso faz com que inevitavelmente seja uma visão parcial da realidade. Quem governa coloca o foco em seus logros, destaca os indicadores positivos e transmite otimismo.
É explicável que assim seja porque dificilmente um presidente vai enumerar seus erros, seus incumprimentos e suas oportunidades perdidas.
O problema deste tipo de informe não é que o presidente apresente uma versão favorável de seu Governo, o problema é que essa seja a única versão institucional e confiável que receba a cidadania.
Nos Estados Unidos – de quem copiamos constitucionalmente a prática deste informe – no ano 1966, a oposição republicana ante seu grande descontentamento com a gestão do então presidente Lyndon Johnson decidiu apresentar uma resposta oficial ao tradicional discurso sobre o Estado da União.
Não se tratava de impedir que o presidente expusesse sua versão, mas de oferecer à cidadania uma interpretação diferente dos fatos. Assim os cidadãos podiam escutar ambos os argumentos e formar seu próprio juízo.
Seria muito positivo que o Paraguai avançasse para uma prática similar. Não faria falta modificar a Constituição nem criar novas instituições. Bastaria com que a principal força opositora ou uma representação conjunta dos partidos de oposição realizasse uma apresentação pública uns dias depois da mensagem presidencial expondo seus pontos de vista e análises alternativos.
Este informe deveria reconhecer os acertos que o Governo tenha tido durante sua gestão, mas também deveria apontar seus erros, suas promessas incumpridas e os dados que merecem outra interpretação. Em definitiva, ofereceria um olhar distinto sobre a situação do país.
A democracia não se fortalece quando existe uma única narrativa, se fortalece quando as distintas visões podem se expressar com seriedade, com dados, e com respeito.
O debate público ganha qualidade quando as ideias substituem os slogans marketeiros e quando os argumentos substituem as desqualificações.
Naturalmente, este informe alternativo também imporia maior responsabilidade à oposição. Já não lhe bastaria com criticar desde as redes sociais ou mediante declarações isoladas.
Teria que elaborar um diagnóstico consistente, respaldado por informação e acompanhado de propostas concretas. Seria uma excelente oportunidade para demonstrar que está preparada para governar e não somente para criticar. Os principais beneficiários seríamos os cidadãos que escutaríamos duas interpretações sobre o país: a do Governo que enfatiza seus logros e seu rumo, e a da oposição que poria o acento nas disciplinas pendentes e ofereceria caminhos alternativos. Depois cada cidadão poderia tirar suas próprias conclusões.
A democracia não se enriquece com menos debate, mas com mais debate; não com menos pluralidade, mas com mais pluralidade.
O informe presidencial já é parte de nossa tradição institucional. Talvez tenha chegado o momento de incorporar também a resposta institucional da oposição.
Não para diminuir a importância da mensagem presidencial, mas para enriquecer a conversa democrática. Porque a realidade de um país se compreende melhor quando pode se escutar mais de uma voz.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.
Cuidado com o microfone