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Cultura

Canções

10/06/2026 08:15 4 min lectura 5 visualizações

A primeira canção que me vem à memória e me conecta com uma situação me remonta aos onze ou doze anos de idade, quando ainda estava na escola primária em Paraguarí, cantada por Mocedades: "Quem te cantará com esta guitarra? Quem a fará soar quando eu não estiver? Quem dará à tua casa cor e ao teu leito calor? Quem te fará o amor?" A melodia me ecoava constantemente e sua letra se repetia no meu peito perturbado de pré-adolescente naqueles tempos, tonto como eu andava por uma colega do sexto ano, a quem só conhecia por Maria e nada mais a via aos domingos e de longe, quando assistíamos à missa, como alunos de turnos separados por sexo de uma instituição religiosa.

Alguns anos depois, ainda agarrado ao velho rádio National de quatro pilhas, em minha casa de Mbatoví, ouvia uma emissora AM de Caacupé que passava canções românticas, uma delas era de José Luis Perales, muito especial para mim naqueles dias, que cantava: "Poderei esquecer as horas da sesta no sótão, minha caixa de tintas e meu desejo de ser poeta um dia. Mas jamais poderei esquecer aquele primeiro amor, que foi sincero, que foi verdade". Tinha entre quatorze e quinze anos e essa canção foi significativa, porque falava coincidentemente dos meus desejos de ser desenhista e poeta um dia, para destacar aquele primeiro amor que me dominava por uma moça dois anos mais velha, esbelta e morena, chamada Mabel.

Mas esses primeiros anos apaixonados ficariam para trás (ou pelo menos assim acreditava) depois de sair de casa pela primeira vez e abrir meus horizontes. Assim cheguei a Misiones, minha segunda pátria pequena, e conheci pessoas, muitas pessoas, com sentimentos e pensamentos distintos dos que até aquele momento eu conhecia e que me vincularam com outras forças mais poderosas.

A primeira canção que me impressionou desse gênero foi Cambia, todo cambia, um hino da contracultura daquele tempo, na voz da Negra Sosa, e isso ao lado de Patria Querida, tão profunda e nostalgicamente nossa quanto esquecida nos dias de hoje. Até hoje sinto que me arrepia ao ouvir: "Robusto o corpo, a fronte sempre erguida, alegres, vamos em busca de tua bandeira. E em teu louvor, suba, pátria tão querida, de nosso amor a mais fervida canção".

Meu horizonte se ampliou e aos vinte anos tive noção das atrocidades que aconteciam no seio da sociedade propagandeada de "Paz e Progresso". Assim entrou Sobrevivendo, de Víctor Heredia: "Me perguntaram como vivia, me perguntaram. Sobrevivendo, disse, sobrevivendo. Tenho um poema escrito mais de mil vezes, nele repito sempre que enquanto alguém proponha morte sobre esta terra e se fabriquem armas para a guerra eu pisarei estes campos sobrevivendo". Depois vieram La maza, de Silvio Rodríguez: "Se não acreditasse em cada ferida, se não acreditasse na que ronda, se não acreditasse no que se esconde ao se fazer irmão da vida".

Para la libertad, de Joan Manuel Serrat: "Porque onde umas órbitas vazias amanheçam ela porá duas pedras de futuro olhar e fará que novos braços e novas pernas cresçam na carne talada. Rebrotarão aladas de seiva sem outono relíquias de meu corpo que perco em cada ferida, porque sou como a árvore talada que rebrota, ainda tenho a vida".

E voltando ao amor, mas mais maduro, longe do romantismo piegas da adolescência, ocupam agora esses espaços canções de Pablo Milanés, como Para vivir: "E agora você vê, o que aconteceu ao fim nasceu ao passar dos anos o tremendo cansaço que já provoco em ti, e, ainda que seja penoso, você tem que dizer. Por minha parte esperava que um dia o tempo se encarregasse do fim. Se assim não tivesse sido, eu teria seguido brincando de te fazer feliz".

E na circunstância de hoje vem me salvar uma canção de Silvio, Tu fantasma: "Podem ser coincidências ou outras raridades que passam, mas por onde quer que ande tudo me conduz a ti. Especialmente a casa me resulta insuportável quando desde seus cantos você se abalança sobre mim".

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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