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Economia

Alto endividamento: barreira para o acesso à moradia no Paraguai

24/08/2026 11:00 4 min lectura 21 visualizações

O acesso a uma moradia digna é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de um país e um indicador-chave do bem-estar de sua população. O déficit habitacional tem sido um desafio que as políticas públicas tentaram mitigar através de diversos programas de financiamento estatal e alianças com o setor privado.

Porém, enquanto o sistema financeiro paraguaio cresce, a grande maioria dos cidadãos da classe média e trabalhadora não consegue se qualificar para obter um empréstimo hipotecário. Este fenômeno responde a um problema estrutural: o superendividamento.

O crescimento do crédito de consumo erosiona a capacidade de endividamento a longo prazo das famílias, atuando hoje como a principal barreira de entrada ao mercado imobiliário formal.

Ao encerramento do primeiro quadrimestre de 2026, o saldo dos empréstimos financiados pelas instituições bancárias atingiu USD 30.000 milhões. Os dados oficiais do Banco Central do Paraguai (BCP) indicam que o crédito de consumo lidera a demanda de empréstimos, representando 19% do total do sistema financeiro, significando um aumento de 40% em comparação com o mesmo mês de 2025.

Este segmento absorve o financiamento de despesas pessoais, viagens, estudos, aquisição de bens não duráveis e, de maneira crítica, o financiamento através de cartões de crédito.

O caso específico dos cartões de crédito é um termômetro das pressões inflacionárias e de consumo sobre os rendimentos laborais. O forte crescimento do crédito de consumo reflete uma dependência cada vez maior do endividamento a curto prazo e a taxas geralmente mais altas para manter o nível de vida ou enfrentar despesas correntes. Esta carga financeira a curto prazo colide contra os requisitos exigidos para se qualificar a um crédito hipotecário e o resultado é a rejeição das solicitações.

O impacto direto deste aumento acelerado nos níveis de consumo a crédito se materializa nas janelas de avaliação dos programas habitacionais impulsados pelo Governo. 60% das solicitações de crédito para a moradia são rejeitadas. Dito de outro modo, apenas quatro de cada dez paraguaios que iniciam o procedimento conseguem superá-lo.

Segundo registros expostos pela Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD), 35% das rejeições obedecem exclusivamente ao "nível de endividamento elevado". A isto se soma 25% de solicitantes que descumprem as políticas das instituições financeiras como atraso ou antecedentes negativos de pagamento.

A incapacidade sustentada das classes médias e trabalhadoras para acessar moradias próprias contribui ao crescimento urbano desordenado e expande a mancha urbana em direção a uma periferia cada vez mais distante, exacerbando a desigualdade patrimonial e encarecendo os custos logísticos do cidadão. Além disto, limita a expansão do setor de construção de moradias, com alto efeito multiplicador na economia.

A combinação entre um crédito de consumo elevado e uma demanda habitacional persistentemente insatisfeita coloca desafios para a política pública. O Paraguai precisa articular políticas integrais que vão além da oferta de créditos. É necessário implementar planos de consolidação de dívidas e políticas laborais e produtivas que melhorem e estabilizem os rendimentos e formalizem o trabalho. Adicionalmente, melhorar os serviços públicos de forma que as famílias destinem seus recursos à moradia e não a subsanar a má qualidade. Sem estas mudanças, o crédito continuará fluindo para o consumo, enquanto a moradia própria e de qualidade seguirá sendo um luxo para a maioria dos paraguaios.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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