Sábado, 19 de Setembro de 2026
ÚLTIMA HORA
Bem-vindo ao ParaguaiNews — as notícias do Paraguai agora em português Bem-vindo ao ParaguaiNews — as notícias do Paraguai agora em português
Paraguai

A persistência do guaraní: língua, poder e hierarquias sociais no Paraguai

Como as decisões políticas e sociais determinam quais idiomas merecem ser ouvidos e quais são relegados aos espaços periféricos

06/09/2026 05:00 4 min lectura 358 visualizações

Entre as maracas e o adorno de plumas, as primeiras palavras belas emergem como chamas e tênue neblina cada vez que se invoca a Ñamandu Ru Ete Tenondegua durante os primeiros resplandores do dia. Antes de converter-se em escrita, antes de ser classificada por gramáticas e dicionários, a palavra foi canto, rito, memória e uma maneira de habitar o mundo.

Na dimensão originária da língua talvez se encontre uma das chaves para compreender uma pergunta que atravessa a história paraguaia: quem decide quais palavras merecem ser escutadas?

O poder por trás das línguas

Falar de línguas supõe falar também de poder. Não existem unicamente idiomas que possuam mais ou menos palavras, maior ou menor complexidade gramatical ou diferentes capacidades expressivas. Existem, sobretudo, línguas às quais uma sociedade concede autoridade e outras às quais relega a determinados espaços periféricos. Há línguas autorizadas para a ciência, a política, a universidade e a literatura, enquanto outras ficam confinadas ao lar, ao mercado, ao afeto ou ao ritual.

O problema, então, não parece estar nas línguas em si, mas nas hierarquias que construímos ao redor delas.

O guaraní: um paradoxo histórico

O guaraní constitui um dos exemplos mais evidentes dessa realidade. Sua história está marcada por um profundo paradoxo: é uma língua profundamente enraizada na vida cotidiana paraguaia e, ao mesmo tempo, foi relegada de numerosos âmbitos considerados prestigiosos.

O antropólogo e linguista hispano-paraguaio Bartomeu Melià advertia que o problema do guaraní não residia em uma suposta incapacidade interna, mas em sua evolução histórica. A marginalização cultural e social o confinaram a determinados campos semânticos, enquanto outros âmbitos — especialmente a ciência e a técnica — lhe permaneciam praticamente vedados. Isso apesar de que o guaraní possui recursos potenciais para formar neologismos, criar expressões novas ou diretamente incorporar empréstimos.

A dimensão política da língua

A questão adquire assim uma dimensão política. Uma língua não deixa de falar de ciência porque careça de capacidade para fazê-lo; deixa de fazê-lo quando uma sociedade decide que a ciência deve falar-se em outra língua.

Algo semelhante ocorre quando se julga a riqueza de um idioma segundo a quantidade de termos que possui para designar números, objetos ou categorias abstratas.

O antropólogo norte-americano Marvin Harris questionava esse olhar ao assinalar que a especificidade ou generalidade de um discurso responde às necessidades culturais de cada sociedade. Ali onde resulta necessário distinguir grandes quantidades, uma língua desenvolve recursos para fazê-lo; quando essa precisão não é relevante para a vida cotidiana, pode bastar com expressões gerais como "pouco", "muito" ou "demais".

Quem possui então o vocabulário mais rico? A pergunta perde sentido quando compreendemos que as línguas não são inventários universais de palavras, mas ferramentas construídas por comunidades concretas para se desenvoverem em mundos concretos.

Por isso as hierarquias linguísticas nunca são puramente linguísticas. São sociais, econômicas, históricas e políticas.

Bilinguismo e desigualdade

O Paraguai costuma apresentar-se como um país bilíngue. Mas a coexistência de duas línguas não significa necessariamente igualdade entre elas.

O bilinguismo pode esconder uma distribuição profundamente desigual de funções: uma língua para os espaços oficiais e outra para os espaços cotidianos; uma para escrever e outra para falar; uma para a universidade e outra para a intimidade; uma para o poder e outra para a vida.

Durante séculos se instalou a ideia de que civilizar equivalia a deixar para trás o indígena; que avançar significava abandonar as próprias raízes...

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.

Comentários (0)

Entre con Google para comentar.