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A arte complexa de encontrar o outro

15/09/2026 10:45 4 min lectura 286 visualizações

Pensei nessa pergunta depois de assistir a Orquídeas para um homem só, peça teatral escrita e dirigida por Agustín Núñez. Não apenas pela história que se desenvolveu no palco, mas porque me conduziu a um território que, tanto pela psicologia quanto pela experiência humana, resulta mais complexo: a distância entre se apaixonar e aprender a amar.

Manuel e Homero se encontram em momentos diferentes de suas vidas. Um parece estar buscando respostas, descobrindo-se e tentando encontrar um lugar próprio; o outro chega ao vínculo com maior experiência e também com a consciência de que o tempo, as diferenças e as histórias pessoais pesam.

Lembrei-me de uma reflexão da psicoterapeuta Nilda Chiaraviglio que me acompanha e me fez colocar o olhar sobre Manuel. Ela distingue o enamoramento da capacidade de amar e propõe que o primeiro contém uma importante carga de fantasia, expectativas construídas sobre o outro, algo que percebi nele.

E embora não o considere uma fórmula a generalizar em todos os casos, sinto-a como uma pergunta interessante: Quanto daquilo que acreditamos encontrar em outra pessoa lhe pertence e quanto buscamos encontrar nela algo porque precisamos? Manuel me produziu essa sensação.

Seu encontro com Homero ocorre enquanto parece atravessar uma busca pessoal. Encontra neste homem maior conhecimento, atenção, experiência e uma forma diferente de olhar o mundo. Talvez, além disso, encontre uma versão de si mesmo que deseja construir.

Isso ocorre às vezes no enamoramento. Não é apenas descobrir outra pessoa, mas descobrir quem acreditamos que podemos ser junto a ela.

No entanto, chega um momento em que a idealização inevitavelmente colide com a realidade. Aparecem as diferenças, os hábitos, as necessidades individuais, o que cada um pode oferecer e aquilo que o outro espera receber.

É então que se inicia outra etapa menos cinematográfica do amor: a convivência.

Núñez soube introduzir, além disso, uma questão que me parece especialmente valiosa: o olhar para o adulto maior.

Em uma sociedade que muitas vezes relaciona apenas a juventude com o desejo, a possibilidade e o futuro, também existe o risco de converter as pessoas maiores em seres aparentemente apartados de determinadas experiências emocionais. No entanto, as necessidades afetivas não desaparecem porque passam os anos. Persiste a necessidade de vínculos, reconhecimento, intimidade, projetos e a possibilidade de se sentir significativo para alguém. Homero representa essa dimensão.

E a experiência pode trazer consigo outra consciência: perceber que querer alguém não elimina as diferenças entre dois projetos de vida.

É aí que a orquídea me parece um símbolo poderoso na obra. É bela e delicada. Precisa de atenção e cuidados específicos. Pode se deteriorar por falta de água, mas também por excesso. Não é suficiente querer conservá-la; é preciso compreender do que ela necessita.

Algo similar sucede com os vínculos. Podemos danificá-los por indiferença, mas também quando confundimos atenção com controle, amor com necessidade ou companhia com a obrigação de que outra pessoa complete nossas carências.

A peça nos espelha uma realidade: um casal não deveria se converter no lugar onde depositamos a responsabilidade de reparar feridas, responder perguntas ou resolver nossa identidade. Crescer afetivamente tem muito a ver com compreender isso.

Ao sair da sala permanece uma agradável sensação e uma pergunta: amar supõe reconhecer que a pessoa diante de nós é outra, com necessidades, tempos, limites, projetos e contradições que nem sempre coincidem com os nossos. Que existem relações que podem ser verdadeiras ainda que não sejam permanentes. Que há pessoas que passam por nossas vidas e, embora depois sigam outro caminho, isso também está bem. Amar é compreender essa realidade.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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