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Cultura

Sociologia paraguaia, dois momentos

16/08/2026 19:45 3 min lectura 20 visualizações

A história de uma disciplina costuma ser escrita como genealogia de autores: quem leu quem, o que foi discutido, o que foi publicado. Sociologia paraguaia: Dois momentos, de Carlos Aníbal Peris, propõe uma entrada menos cômoda e mais reveladora: a dos permissos. Antes de que uma sociedade produza conhecimento sobre si mesma, alguém tem que autorizá-la a fazê-lo. No Paraguai, esse permisso foi negado duas vezes, com setenta anos de distância e com dois procedimentos distintos.

O primeiro momento transcorre entre 1900 e 1913. O país abre então uma das primeiras cátedras de sociologia da América Latina, pela mão do positivismo e de Cecilio Báez, e a reação não demora: em Villarrica, a disciplina recebe o que um folheto da época chamou, sem metáfora, seu primeiro batismo de sangue.

A Igreja Católica aparece ali como adversária frontal de uma ciência que se propõe explicar a ordem social sem recorrer à providência.

O segundo momento começa em 1972, e seu interesse está na inversão. A carreira de Sociologia se abre na Universidade Católica: a instituição que havia combatido a disciplina é agora a única capaz de alojá-la, porque sob a ditadura é também o último espaço com alguma margem. Mas a margem tem um limite, e em 1983 a carreira se fecha. Desta vez não há bomba nem mártir: há expediente, resolução, selo.

Ali está, para o autor, a lição mais dura do livro. O segundo fechamento foi mais eficaz que o primeiro precisamente porque não deixou cicatriz visível. A violência física produz memória; a violência administrativa produz esquecimento. O primeiro momento nos legou um folheto que ainda se lê; o segundo deixou um vazio que durante décadas se explicou como falta de vocação, de massa crítica ou de interesse nacional pelas ciências sociais. Não foi nada disso: foi uma decisão, e está documentada.

Daí a aposta metodológica. O livro se sustenta em fontes de difícil acesso — expedientes universitários, documentação institucional, material do Arquivo do Terror — e dessa escolha surge uma ironia que atravessa todo o trabalho: o aparato que vigiava é o que conservou, e o historiador termina reconstruindo a vida intelectual do país com os papéis de quem a reprimiu.

A pergunta que fica aberta não é só historiográfica. A sensação de que a sociologia paraguaia sempre está começando de novo não é um traço de caráter nacional nem uma fatalidade: é o efeito de dois cortes bem datados. Repor essa continuidade é, também, uma maneira de discutir o presente — o que se pode investigar, quem o financia, que perguntas continuam sendo inoportunas.

- Livro: Sociologia paraguaia: Dois momentos
- Autor: Carlos Aníbal Peris
- Apresentação: Ramón Fogel
- Epílogo: Luis Ortiz
- Editora: Commune Editores – Faculdade de Ciências Sociais, UNA
- Lançamento: sexta-feira, 21 de agosto às 19:20
- Local: FACSO–UNA, no marco do Simpósio de Sociologia 2026, com comentários da Profa. Ada Vera (Decana), do Prof. Luis Ortiz e do Prof. Ramón Fogel
- Entrada: Gratuita; haverá distribuição de exemplares aos presentes.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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