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Sociedade

Sobre o desejo

19/07/2026 19:45 4 min lectura 32 visualizações

Essa leitura é falsa, e é falsa propositalmente. Não é ingenuidade, é uma forma de manter a ordem: Se o desejo popular é "pequeno", então não faz falta redistribuir nada gordo para acalmá-lo. Basta uma promoção, uma feroz oferta, doações de artigos usados, com a sensação de ter chegado a algo. Às vezes precisam acreditar que o pobre pede pouco para não ter que se perguntar por que o pobre tem tão pouco.

A verdade é outra, e mais incômoda: O desejo é o mesmo. Ninguém sonha com um tênis pirata porque lhe baste isso. Sonha-se com o tênis porque é o único daquele mundo inteiro – o mundo da marca, do prestígio, de pertencer a algo global que te olha pela vitrine – que se pode tocar com a mão.

O tênis não é o teto do desejo. É o ponto de entrada.

Atrás há o mesmo que há atrás do abastado que compra o original no shopping: Querer ser visto, querer estar dentro, querer que o corpo próprio não denuncie de onde vem assim que o olhem.

A diferença nunca foi o tamanho do sonho, mas o preço de acesso. Um paga com cartão e sai com a caixa selada; ao outro lhe toca negociar por Marketplace, aceitar a cópia, carregar com a suspeita de "pirata" como se fosse uma falta moral em vez de uma consequência econômica. E ainda assim suporta o custo simbólico completo: Quem compra original nunca precisa explicar por que as escolheu, quem compra o pirata sim, todo o tempo, começando pela própria vergonha que lhe ensinaram a sentir.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu já havia advertido há décadas: O gosto nunca é inocente nem espontâneo, é a forma em que a desigualdade social se disfarça de preferência pessoal. O que chamamos de "bom gosto" não nasce do refinamento, mas da distância que alguém consegue colocar entre si e a necessidade; só escolhe com calma quem não precisa sobreviver escolhendo. Por isso o desprezo pelo teu tênis não é só estético, mas a maneira em que uma classe converte sua vantagem material em superioridade moral.

Aí está o verdadeiro trabalho do capitalismo estetizado: Não só vende a marca, vende também a interpretação de quem pode desejá-la de verdade. Converte o desejo idêntico em dois desejos de hierarquia moral distinta. O de cima chama de ambição. O de baixo, conformismo, mau gosto ou questiona a "falta de prioridades". Com essa dupla vara se sustenta a ideia de que o pobre não é que não possa, é que não quer de verdade; que se conforma. Não basta. Nunca bastou. O que muda não é a intensidade do desejo, é o terreno onde a cada um lhe toca jogá-lo.

No fundo o reclamo é simples: Ninguém deveria ter que pedir desculpas por querer uns bons tênis. Não é capricho, não é superficialidade, não é "falta de prioridades". É o mesmo direito a sentir-se bem no próprio corpo, a caminhar sem que o calçado denuncie a carteira, a escolher sem que a escolha se converta em julgamento. Ter acesso ao bom, ao que dura, ao que não se estraga no segundo mês, não deveria ser privilégio de poucos. É, apenas, o que se lhe deve a qualquer um que sai à rua todos os dias a se arriscar inteiro. Atrás daquele tênis, como atrás de cada coisa pequena que nos negam, está pedindo passagem o reclamo maior de todos: O direito a uma vida digna, completa, sem ter que demonstrar o tempo todo que a merecemos.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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