Quando o desejo muda de lugar
Abrimos uma rede social e aparecem rostos perfeitos, corpos cada vez mais magros, peles sem marcas, filtros que modificam fações e tendências que mudam a uma velocidade impossível de acompanhar.
Um dia se fala de lábios volumosos, no seguinte de mandíbulas definidas, de olhos puxados, de maçãs do rosto marcadas ou de uma nova técnica para parecer mais jovem. Tudo parece girar em torno de como nos vemos.
O vídeo A comida é o novo luxo? Marketing com comida na era do Ozempic analisava um paradoxo interessante.
Enquanto milhões de pessoas recorrem a tratamentos que diminuem o apetite, a publicidade está mais cheia do que nunca de imagens de comida. Bolos brilhantes, doces, frutas perfeitas, sorvetes irresistíveis e aromas inspirados em sobremesas aparecem em campanhas de produtos que nada têm a ver com alimentação.
A hipótese é que o desejo não desaparece. Se uma porta se fecha, busca outra forma de se manifestar, e sim, neste caso é através do que veem os olhos ou degusta o olfato.
Além de se essa teoria está correta ou não, ela me levou a analisar algo que observo há tempos. Parecia que a cultura da imagem penetrou tão profundamente no subconsciente coletivo que muitas pessoas acabam confundindo aparência com valor pessoal. E ali encontro um problema. Não porque cuidar da imagem seja ruim. Muito pelo contrário.
A apresentação pessoal faz parte da comunicação e do respeito consigo mesmo. O inconveniente aparece quando o aspecto físico se torna a medida principal da autoestima e inclusive, em algumas sociedades, da aceitação social e até profissional.
Às vezes parecia que temos substituído perguntas essenciais por outras muito mais superficiais. Em vez de nos perguntarmos como estamos, o que sentimos, o que pensamos ou como estamos construindo nossa vida, terminamos concentrados apenas em como nos vemos e a qualquer preço. O perigoso é que às vezes, a saúde fica relegada a um segundo plano.
Por isso me pergunto se não seria mais útil falar mais de autocuidado do que de perfeição estética. Mais de hábitos saudáveis do que de corpos aspiracionais. Mais de educação ou gestão emocional do que de padrões impossíveis de alcançar. Porque uma pessoa pode parecer magra e não estar saudável.
Pode se adequar a todos os parâmetros de beleza do momento e viver profundamente insatisfeita. Também pode ocorrer exatamente o contrário. A verdadeira transformação não ocorre diante do espelho. Ocorre quando entendemos que nosso valor não depende de uma fotografia, de um filtro nem de uma tendência.
E que a felicidade não sucede magicamente diante dos likes de estranhos que "aprovam" uma foto ou vídeo que subimos em alguma rede social. Ser responsáveis de nossa saúde implica aprender a escolher. Escolher o que consumimos, como alimentamos, nutrimos nosso corpo, como lidamos com nossas emoções e que mensagens permitimos que influenciem a percepção de nós mesmos.
Em tempos nos quais a aparência parece ocupar tudo, para muitos, talvez convenha recordar algo simples: A imagem é apenas uma parte de quem somos. E tomara que não esperemos perder saúde para nos darmos conta de que esta é o verdadeiramente valioso e insubstituível. A inteligência, a sensibilidade, a criatividade, a capacidade de amar, de trabalhar, de aprender e de construir vínculos seguem tendo um valor muito mais duradouro do que qualquer tendência estética imposta por interesses de quem sabe quem.
E talvez ali esteja a verdadeira liberdade: Em poder nos olhar no espelho sem esquecer que somos muito mais do que o reflexo que vemos ou esperam outros, que muitas vezes nem conhecemos.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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