Precisamos de luz em Itaipú
Itaipú não é uma estância privada. Não é um butim para o poderoso de turno como muitos políticos acreditam; é o maior ativo do Estado paraguaio. Portanto, o sigilo diplomático não tem lugar aqui. Quando as reuniões são conduzidas sob um manto de confidencialidade extrema, a cidadania perde a capacidade de controlar o que está sendo cedido e em troca de quê. A transparência não é um favor que o Executivo nos faz, é uma obrigação constitucional. Exigir que os documentos, atas e propostas estejam à disposição do escrutínio público é o único antídoto contra a assimetria histórica que sempre favoreceu o Brasil.
Mas a transparência não é o único fim, senão também é o meio para garantir um objetivo inegociável dentro dessas negociações, qual seja assegurar que a Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) seja a mais beneficiada do que resultar de um eventual acordo bilateral.
Durante décadas, a energia que produz Itaipú, hidroelétrica pela qual nós, nossos pais e avós pagamos por sua construção, subsidiou o descolamento industrial de nosso vizinho cedendo potência a preços irrisórios. Essa etapa deve terminar. A negociação do Anexo C tem que estar milimétricamente desenhada para outorgar à ANDE maiores margens de manobra, tanto técnicas quanto financeiras. Mas assim também deve prevalecer o princípio de reciprocidade. Quando Paraguay precisar de energia, deveria poder consegui-la a um preço irrisório como consegue hoje o Brasil com os excedentes.
Os benefícios de uma tarifa justa ou da livre disponibilidade para comercializar nosso excedente a preço de mercado devem ser injetados diretamente na infraestrutura elétrica nacional. De nada nos serve nos ufanarmos de ser coproprietários da hidroelétrica mais eficiente do mundo se cada verão, em Assunção e no interior, os transformadores colapsam e os cidadãos precisam suportar cortes de luz sob temperaturas de 40 graus. Mas para que isso seja possível, a saúde financeira da ANDE deve melhorar. A empresa deve ser a prioridade deste e dos sucessivos governos.
A ANDE necessita de recursos multimilionários para modernizar suas linhas de transmissão, apostar em tecnologia de distribuição inteligente e garantir os planos de novas fontes de geração. Se o resultado do Anexo C não se refletir em um sistema elétrico robusto e em tarifas competitivas para o paraguaio, então teremos perdido a batalha, independentemente de como nos vendam o acordo em conferências de imprensa.
Brasil é um gigante que defende seus interesses com uma maquinária diplomática implacável e com os números sobre a mesa. Paraguay não pode sentar-se nessa mesa com timidez nem com agendas ocultas. No país vizinho, todos sabem qual é a estratégia. Porém, deste lado só sabemos que a assinatura do acordo parece depender do calendário eleitoral do Brasil.
Transparentar as negociações é, de fato, deveria ser a melhor estratégia do Governo. Ao tornar públicas suas posições e exigir o justo para a ANDE, conseguiria que todo o país se unisse atrás de uma única bandeira, como fez atrás da Albirroja. É hora de abrir as janelas da diplomacia e deixar que entre a luz. Já estivemos no escuro tempo demais. Itaipú é de todos os paraguaios. Os donos da metade da hidroelétrica precisamos saber o que está sendo negociado. O Anexo C será fundamental para o futuro do país e urge acelerar as negociações. Sem saber quanto custará a energia da hidroelétrica no futuro, o caminho para atrair indústrias continuará sendo incerto. É hora de acender a luz para que todos vejamos o que está acontecendo.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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