O verdadeiro desafio não é construir um data center (II)
Na primeira entrega sustentei que a prioridade do Paraguai não são os servidores, mas sim o talento, as instituições e a conectividade. Permanecem, contudo, quatro interrogantes que o entusiasmo tende a deixar de lado.
Convém desativar uma comparação que circula com força: a de Itaipú. O paralelismo é atrativo no simbólico, mas enganoso na substância. Itaipú foi uma obra binacional respaldada por dois Estados, com compradores definidos para sua energia e um marco jurídico consolidado. O projeto de inteligência artificial, em contrapartida, depende da incorporação de investidores privados cuja participação será imprescindível para alcançar suas etapas mais ambiciosas. Não estamos diante de uma nova Itaipú, mas diante de uma aposta condicionada pela rentabilidade privada e pela disponibilidade futura de capital internacional.
Daí surge a incógnita que sustenta a todas as demais: a demanda. Não basta construir capacidade de processamento; faz-se necessário quem a utilize. A recente visita de Peter Thiel ao país alimentou especulações sobre o interesse de grandes atores tecnológicos na energia paraguaia, embora não exista informação pública que a vincule com este projeto. A pergunta permanece: quem serão os clientes capazes de justificar investimentos desta magnitude? Enquanto essa resposta não se concretizar, toda projeção de crescimento deveria ser lida como aspiração e não como certeza.
Há além disso duas dimensões decisivas. A primeira é geopolítica. Taiwan apresenta o projeto como parte de uma estratégia de cooperação entre democracias, uma visão legítima desde sua perspectiva. Mas o Paraguai deve questionar-se se lhe convém vincular uma parte substancial de sua estratégia tecnológica ao conflito entre China e Taiwan. Essa disputa não é nossa e nosso interesse nacional passa por desenvolver capacidades próprias, diversificar parceiros e reduzir dependências. A tecnologia deve ser uma política de Estado paraguaia, não a extensão de uma pugna alheia.
A segunda dimensão é jurídica e cidadã. Outorgar um regime especial à infraestrutura digital apresenta-se como garantia para proteger dados críticos e atrair investimento, mas abre interrogantes sobre jurisdição, controle democrático e direitos. Se essa infraestrutura operasse sob esquemas de imunidade ou proteção extraterritorial, seria imprescindível definir quais direitos conservam os cidadãos sobre seus dados e quais instituições exercem a supervisão. A confiança digital não se constrói apenas com tecnologia; constrói-se com instituições.
Tudo conduz ao mesmo ponto. Se o Paraguai aspira a ser um ator relevante na inteligência artificial, o investimento mais urgente não está nos servidores, mas nas pessoas. A experiência taiwanesa ensina que o desenvolvimento sustentável nasce de décadas de investimento em educação e de ecossistemas de inovação que levam anos para amadurecer. Sem essa transformação do sistema educativo e sem uma política de pesquisa e desenvolvimento, corremos o risco de fornecer energia, território e benefícios regulatórios enquanto o conhecimento e os empregos de maior valor se geram em outros países.
Taiwan não construiu primeiro os data centers: formou talento, fortaleceu instituições e impulsionou a pesquisa, e apenas então chegaram. A verdadeira pergunta para o Paraguai não é se pode levantar um grande centro de dados, mas se está disposto a investir durante os próximos vinte anos em educação, ciência, tecnologia e instituições para afastar-se, por fim, do modelo maquila.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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