O relatório maldito
À medida que a história avança, aparecem novos detalhes.
O autor do polêmico dossiê, um auditor financeiro, desapareceu. Foi transferido para outra dependência uma semana após ter apresentado o documento. O relatório foi arquivado sob sete chaves, mas não antes de uma cópia vazar. Logo o conteúdo passou a ser um segredo de voz em voz. Não havia um único escritório público nem privado onde não fizessem referência ao parecer maldito, sobretudo porque se os dados precisados nele estão corretos implicam uma vaticínio tácito; que mais cedo ou mais tarde haverá um novo terremoto no mercado.
Somam-se outros rumores. Vozes (que podem ser interessadas) asseguram que por trás da construção deste gigante financeiro de pés de barro há um projeto político em gestação: A substituição do grupo hegemônico vigente por um novo, um com financiamento próprio. Sua leitura é muito simples; o líder atual construiu seu poder com dinheiro e pode ser substituído quando seu dinheiro já for insuficiente ou apareça um financista substituto.
Fala-se de um motim e o cenário parece propício. No partido de governo há chefes regionais fartos de que os cargos importantes sejam preenchidos com designações a dedo. O esforço para sustentar a embarcação filibustera é coletivo, mas apenas o timoneiro decide como se reparte o butim. A sublevação já não parece tão descabida. Além disso, o velho lobo tem um limite físico natural e a matilha contempla o futuro com incerteza.
Ao chefe chegam todas estas versões, inclusive uma segundo a qual seu pupilo apresenta o banqueiro nos foros internacionais como o inevitável substituto do líder. É a gota que transborda o copo. É então quando alguém lhe aproxima a cópia do informe silenciado.
O homem convoca seus leais; redige-se um astuto questionário, o enviam às autoridades venais… E o tornam público. O segredo de voz em voz deixou de sê-lo. O inquilino do Palácio eclode em fúria.
Terceiro ato; chegou o momento de testar lealdades. O chefe convoca o segundo pupilo, o mais querido e candidato a suceder o primeiro, e lhe exige uma prova de fidelidade política, um anúncio tempestuoso. E não o consegue. O motim é oficial. O chefe acredita ter o controle do Congresso, mas já não está seguro do que acontece em uma das câmaras. Tampouco pode descartar a ressurreição de sanções internacionais. O amigo de Washington é o pupilo, não ele.
A crise fica congelada por duas semanas, até depois de alguns pleitos. Ninguém consegue dizer com certeza o que acontecerá depois. Há especulações para todos os gostos, inclusive para quem prefere acreditar que tudo é uma montagem destinada a consolidar uma candidatura ou a gerar uma dissidência de ficção. Outros asseguram que se trata de um enfrentamento geracional e do surgimento de uma nova leva que busca deslocar os velhos líderes.
O único seguro é que o relatório existe e que seu conteúdo é mais relevante que qualquer disputa tribal partidária. Se seus dados estão corretos, a principal administradora de fundos de pensão do país pode perder entre 15 e 20 por cento de suas reservas. Seria uma punhalada no coração financeiro da República, um verdadeiro crime político. O thriller fica com final aberto e o público se retira com uma vaga sensação de que já viu antes este filme.
Felizmente, estamos falando de uma ficção. Qualquer parecido com a realidade é pura coincidência.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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