O Mercosul muda de ciclo: a retenção de matrizes antecipa uma oferta mais ajustada
A pecuária do Mercosul começa a mostrar sinais de uma mudança de fase. Depois de vários anos de alta extração, redução de existências e forte participação de fêmeas no abate, durante 2026 aparecem indicadores compatíveis com um processo de retenção e futura recomposição dos rebanhos.
O movimento ainda não é uniforme entre Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai, mas a direção regional começa a ser clara. Durante o primeiro semestre de 2026, o abate bovino conjunto dos quatro países caiu cerca de 6% em relação ao ano anterior, com retrocessos em todos os mercados. O Paraguai liderou a queda, seguido por Uruguai, Argentina e Brasil.
Mais importante que a redução do abate total é observar quais animais estão deixando de chegar aos frigoríficos. No Paraguai, as fêmeas representaram cerca de 36% do abate durante o primeiro semestre e em julho sua participação se manteve abaixo de 40%. O abate de novilhas caiu mais de 28% em relação ao ano anterior, enquanto o processamento de machos aumentou.
O sinal é consistente com uma maior retenção de fêmeas jovens para reprodução. Em um país que vem de vários anos de redução de existências, manter mais novilhas e vacas dentro do sistema é o primeiro passo para estabilizar e posteriormente reconstruir o rebanho.
O Uruguai aparece em um estágio um pouco mais avançado. O último levantamento mostrou um crescimento de 1,8% nas vacas de cria e um salto de 17,2% em bezerros e bezerras, superando novamente os 3 milhões de cabeças. É uma evidência concreta de que a recuperação reprodutiva já começa a se refletir na estrutura do rebanho.
A Argentina também apresenta sinais de transição. O abate diminuiu durante 2026 e nos últimos meses começou a se observar uma menor participação de fêmeas. O estoque ainda mostra os efeitos de vários anos de liquidação, mas o comportamento do abate sugere que o ciclo poderia estar se aproximando de um ponto de inflexão.
O Brasil é a peça decisiva por seu enorme peso dentro da produção regional. O país começou o ano ainda com altos níveis de extração e forte abate de fêmeas, consequência da fase de liquidação dos últimos anos. Porém, durante o segundo trimestre começaram a aparecer sinais de menor saída de matrizes. Se essa tendência se consolida, o efeito sobre a oferta de gado do Mercosul será significativo.
A mudança de ciclo ocorre além disso em um contexto internacional favorável para os preços. Os Estados Unidos mantêm um rebanho reduzido e atravessam seu próprio processo de recomposição, enquanto a Europa enfrenta uma menor disponibilidade de gado e uma produção de carne limitada. Ao mesmo tempo, a demanda importadora continua firme nos principais mercados.
Essa combinação pode gerar uma tensão particular. Para reconstruir os estoques é necessário reter fêmeas, e cada matriz que permanece no campo é um animal que deixa de estar disponível para abate.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do AgroRural Paraguay.
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