O intervalo do Governo de Santiago Peña
Embora seja necessário esperar esses resultados para esclarecer como seguirá a condução política do oficialismo, há fatores que já hoje se perfilam como condicionantes do Governo.
O primeiro é o efeito lame duck (pato coxo), que afeta um presidente que entra na etapa final do mandato e perde poder real porque todos antecipam sua saída. Isso era esperável em Peña, dado que não há reeleição; o que não se antecipou é que também alcançasse o oficialismo, porque Horacio Cartes era a garantia de continuidade da liderança do movimento. Após as dificuldades de saúde do ex-presidente no início do ano, pairou uma imagem de dúvida sobre sua capacidade de manter uma liderança firme. Se o efeito lame duck também o alcança, Honor Colorado entraria em risco de continuidade e poderiam antecipar-se rupturas no segundo tempo.
O segundo fator é fiscal: "não há dinheiro", como diria Javier Milei. O novo ministro da Economia, Óscar Lovera, anunciou que a dívida estatal com fornecedores gira em torno dos USD 1.300 milhões, uma cifra bastante maior do que a que vinha sendo manejada. Isso gera rixas dentro da Administração Pública e no próprio oficialismo, já que os recursos para mostrar capacidade de gestão são limitados e o empresariado mais próximo está se tornando crítico. A isso se soma um dado contundente publicado por Javier Lassalle em Tereré Cómplice: os juros da dívida já superam todo o investimento público do Estado. Escasseiam os fundos para estradas, hospitais e obras, reduzindo a capacidade do Governo de mostrar resultados tangíveis.
O terceiro elemento é que a tradicional dinâmica colorada de dividir-se entre oficialismo e oposição pode replicar-se dentro do próprio Honor Colorado. A magnitude do movimento, que abriga candidaturas rivais em várias zonas, alimenta a competição interna. Se além disso levarmos em conta que a dirigência já tem o olho posto nas próximas eleições de deputados, senadores, governadores e inclusive na chapa presidencial, o caldo de cultivo para o fogo amigo está servido. As declarações do embaixador em Washington, Gustavo Leite, sobre "cheiro de propina" no Governo, e as críticas do ex-presidente Nicanor Duarte Frutos após reunir-se com Cartes, mostram que a oposição ao presidente também virá de dentro.
Em suma, o oficialismo chega ao intervalo com três frentes que se retroalimentam: uma liderança que se enfraquece, um Estado sem margem fiscal e um movimento grande demais para que suas costuras não se tornem rachaduras. Nenhum é definitivo por si só, mas combinados configuram um cenário onde a capacidade do Governo de impor agenda dependerá menos de sua vontade que de variáveis que escapam ao seu controle. O segundo tempo recém começa, e o que está em jogo não é apenas o saldo do Governo de Peña, mas o formato mesmo da competição política no que resta de mandato.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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