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Esportes

O futebol e a presunção de culpabilidade

22/06/2026 14:15 3 min lectura 12 visualizações
El fútbol y la presunción de culpabilidad

O futebol é um dos esportes que, ao longo de seu século e meio, mais se resistiu às mudanças. Sofreu algumas ou outras decisivas a cada muitos anos, conservando com um zelo cego suas dezessete regras originais: as que o fizeram um exemplo de simplicidade para vinte e dois jogadores repartidos em um campo retangular; e para os espectadores que assistiam aos jogos nas tribunas dos estádios ou, mais tarde, os viam pela televisão. Até que, na última década, a International Board da FIFA, o organismo encarregado de definir o aspecto regulamentador do futebol, o submeteu a um processo de aceleração e mudança normativa quase neurótico, que vemos como está transformando a própria natureza deste popular esporte.

No heroico triunfo mundialista do Paraguai contra a Turquia na Califórnia (1-0), com um jogador a menos durante mais de cinquenta minutos, Miguel Almirón inaugurou (pela segunda vez na Copa do Mundo!) uma destas novas regras neuróticas: a que castiga com cartão vermelho – "a critério do organizador", segundo a Regra 12 modificada, que fala sobre faltas e conduta inadequada – se um jogador tapa a boca para falar. Os torcedores recordam que a regra surgiu após o affaire Vinicius-Prestiani no jogo Benfica-Real Madrid de fevereiro passado pela Liga dos Campeões, em que o jogador argentino tapou a boca para falar ao brasileiro, quem em seguida denunciou um suposto ato de racismo. Agora a FIFA considera que, se o organizador de uma competição o crê discrecionalmente necessário, tapar a boca – sem sequer perguntar pelo que supostamente se diz – é considerado uma falta grave, como um chute acima do tornozelo ou desferido por trás arterialmente.

A FIFA desata assim a mutação mais orwelliana do futebol: não apenas o Big Brother – chamado VAR – pode avisar deste novo evento "grave", senão os próprios jogadores são impulsionados a se converterem em delatores de seus colegas (como num renovado macartismo aplicado ao futebol), em casos de comum e corriqueiro intercâmbio de insultos entre duas pessoas com as pulsações aceleradas, advertíveis seguramente, mas francamente de maneira grave? Esta mutação dá início à era da presunção de culpabilidade dos futebolistas; não de sua inocência, uma anomalia jurídica que não pode senão ser qualificada como típica de regimes totalitários, ditatoriais. Ou, como prefere a nova linguagem punitiva do corretismo político à maneira da FIFA: discricionária.

Quando terminou a Copa do Mundo de Rússia 2018, a primeira em que o VAR foi utilizado, este cronista publicou uma coluna intitulada "O caso e a trama: tecnologia no futebol". Ali nos inclinamos pela total ociosidade da invasão tecnológica na própria natureza do jogo, não apenas em sua percepção mediante a televisão. A natureza que fala à câmera, dissemos com Walter Benjamin então, não é a mesma que fala ao olho. Oito anos depois e com a quase total colonização algorítmica deste esporte, o futebol como o conhecemos até uma década atrás nos desvanece rapidamente, como tudo que é sólido se desvanece no ar na natureza mutável e veloz da sociedade capitalista, segundo escreveu Marx nos anos em que o futebol nascia.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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