O experimento da reserva holandesa que passou de santuário de animais a campo de morte
Como Oostvaardersplassen se tornou um dos projetos mais polêmicos de reintrodução da vida selvagem na Europa
Os passageiros que viajavam de trem entre as cidades holandesas de Almere e Amsterdã se horrorizaram: desde suas janelas podiam ver milhares de animais mortos espalhados na reserva natural de Oostvaardersplassen.
Era fevereiro de 2018 quando o escândalo eclodiu. Um dos mais notórios projetos de reintrodução da vida selvagem na Europa, concebido como lar de vacas, cervos e cavalos selvagens, decidiu sacrificar a tiros milhares de animais antes que morressem de fome.
Foi uma crueldade de seus cuidadores ou simplesmente a natureza seguindo seu curso?
As imagens daquela época mostravam o que parecia mais um páramo desolado do que uma zona de conservação, com os ossos espalhados por um solo enegrecido e sem qualquer traço de árvores ou arbustos.
"Era uma imagem completamente diferente... uma pradaria monótona", diz Hans-Erik Kuypers, o guarda do parque do serviço florestal neerlandês que me guia pela reserva.
Hoje uma surpreendente variedade de avifauna vada em poças de água cristalinas, e grupos de sabugueiros, salgueiros e espinheiros salpicam a paisagem.
Uma águia de cauda branca surca o céu e esbeltos cavalos selvagens trotam na grama enquanto grandes touros se alimentam da exuberante vegetação.
O canto dos pássaros inunda o ar e fica difícil acreditar que estejamos a apenas 40 minutos de carro do movimentado centro de Amsterdã.
Os acontecimentos de 2018 levaram a uma mudança na gestão e agora os guardas intervêm ativamente para evitar a inanição.
Plantam árvores, alimentam os animais se necessário e mantêm as populações sob controle.
No entanto, alguns acreditam que a reserva deveria ser deixada ao acaso da natureza e livre de intervenção humana.
"A renaturalização depende de seus objetivos, mas também de sua filosofia. Quais são os objetivos humanos que projetamos sobre a natureza?", pergunta Kuypers.
É um debate que vai ao coração mesmo da renaturalização, o movimento de restauração da natureza que se espalhou por todo o mundo nas últimas décadas e que teve no ocorrido em Oostvaardersplassen um de seus momentos críticos.
O Oostvaardersplassen foi criado em 1968 quando um mar interior foi drenado para construir duas novas cidades, Lelystad e Almere, na província de Flevoland.
O plano inicial era utilizar a terra restante para o desenvolvimento industrial, mas logo ficou claro que o local atraía uma grande quantidade de gansos e outras aves migratórias que acorriam nos meses de maio e junho.
A zona se converteu em "um paraíso para as aves de pântano" e "uma das zonas de observação de aves mais belas dos Países Baixos e da Europa", lembra Frank Berendse, especialista em gestão da natureza da Universidade de Wageningen.
O biólogo neerlandês Frans Vera, que havia sido aluno de doutorado de Berendse, escreveu um artigo intitulado "Oostvaardersplassen: um experimento ecológico único" no qual argumentava que se havia convertido em uma das zonas mais importantes para as populações europeias de aves aquáticas e de pântano, e liderou um movimento para que a área fosse declarada reserva natural, o que finalmente aconteceu em 1983.
Com 56 km² e tamanho similar ao de Manhattan, a reserva protegia pântanos e pastagens úmidas e secas, que seriam gerenciadas pelo serviço florestal estatal.
Os responsáveis tiveram que enfrentar o desafio de manter o lugar aberto para os gansos que se alimentavam nele.
A vegetação o invadia rapidamente e havia preocupação de que acabasse...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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