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Paraguai

A arte, o futebol e a paz: uma reflexão desde a cancha de bairro

12/07/2026 04:45 3 min lectura 11 visualizações

A busca por uma obra artística que grafasse a relação entre a arte, o futebol e a paz culminou no encontro da pintura "Canchita sobre a rua Carpinelli em 1974" do pintor asunceno Ignacio Núñez Soler. Esta obra se converte em ponto de partida para uma reflexão sobre os espaços de convivência nos bairros de Asunção.

Inspirando-se em relatos históricos da Guerra do Chaco, onde músicos paraguaios executavam peças que detinham momentaneamente o fogo e permitiam momentos de trégua, estabelece-se um paralelo com o papel do futebol e da arte como geradores de paz na vida cotidiana.

A cancha vazia como expressão artística

A pintura de Núñez Soler apresenta uma cancha de futebol vazia com uma horizontalidade tão característica quanto a geografia chaqueña. A obra transcende a ideia de um simples terreno de jogo para se converter em uma expressão pura do espaço: dois gols que equilibram os extremos, uma arvoreta alinhada de fundo e, atrás, o arroio Mburicaó ou Tembetary. O centro da cancha, com seu imenso verde, se configura como um espaço vazio para pensar, inspirar-se e criar.

Os espaços de jogo nos bairros asuncenos

Até bem entrados os anos 80 do século XX, muitos bairros asuncenos utilizavam terrenos baldios para a prática do futebol e da vida social comunitária. David Prono Toñánez relatava com detalhes como eram estes encontros: a composição dos times, as dinâmicas de jogo e uma visão quase antropológica destas práticas barriais.

Em zonas onde as ruas eram planas, frequentemente se fechavam para permitir os compromissos futboleiros improvisados. Segundo testemunhos recolhidos na obra "Pelota com picho" de Silvio Codas Friedmann, os partidos bairro contra bairro transcorriam em espaços variados: o empedrado, baldios, escadarias e inclusive nas instalações do Club Nacional.

Participação feminina nos partidos barriais

Historicamente, estes encontros desportivos não se limitavam à participação masculina. No bairro La Catedral, especificamente na zona do Perpetuo, organizavam-se partidos femininos com a participação de mulheres como doña Coca de Lara Castro e doña Argentina Cavina de Aguirre, ampliando assim os espaços de convivência e recreação comunitária.

A igualdade no jogo de bairro

José Luis Ardissone recordava nostalgicamente os partidos que se armavam junto à velha igreja, ao lado do bar San Roque. Nestes encontros, a convivência transcendia as diferenças econômicas: crianças de diferentes setores do bairro se reuniam para jogar. "Como não tinham chuteiras, nós nos tirávamos e jogávamos com eles, todos por igual, descalços", relatava emocionado.

Esta dinâmica refletia um princípio fundamental de equidade, onde o acesso ao desporto não dependia de possibilidades econômicas, mas da vontade compartilhada de participar e conviver.

A pintura de Ignacio Núñez Soler, contemplada novamente à luz destes testemunhos, se configura como uma janela para aquelas épicas tardes de jogo nos bairros asuncenos. Assim como os músicos na Guerra do Chaco encontravam espaços de paz no meio da confrontação, o futebol barrial se apresentava como um encontro pacífico onde a comunidade se reunia, sem hierarquias nem distinções, simplesmente para jogar e conviver.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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