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Cultura

Neruda e Paraguai: um diálogo entre a poesia, o exílio e a memória

20/09/2026 11:00 3 min lectura 430 visualizações

Um encontro sem presença física

Em um recanto da praça das Américas, onde convergem as avenidas Marechal López e San Martín, encontra-se um busto de Pablo Neruda que permanece como testemunha silenciosa de uma relação particular entre o poeta chileno e o Paraguai. Esta escultura, realizada por Hugo Pistilli e inaugurada em 14 de maio de 2004, marca um vínculo construído através da literatura, da amizade e da solidariedade política, mais do que pela presença física do escritor no território.

Neruda nunca percorreu as ruas de Assunção nem experimentou diretamente a geografia paraguaia. Entretanto, evocou o país com palavras de particular intensidade. Sua conexão foi tecida por meio de correspondência, encontros literários e um profundo compromisso com as causas daqueles que se viram obrigados ao exílio.

A inauguração do monumento contou com a presença do então presidente do Chile, Ricardo Lagos, conferindo uma dimensão diplomática e cultural à homenagem. A placa que acompanha a obra inclui um fragmento do texto "Vámonos al Paraguay", escrito por Neruda em Paris em 1950.

As palavras a partir da distância

O fragmento inscrito na placa revela a intensidade do vínculo:

"A vida me reserva o Paraguai um recinto profundo, uma cúpula incomparável, uma nova submersão no humano"

Esta frase foi publicada originalmente na revista Pro Arte de Santiago do Chile em 30 de novembro de 1950, e posteriormente incluída em suas memórias "Para nacer he nacido", publicadas em 1977. As palavras de Neruda transmitem um sentimento de conexão profunda com o país, apesar da distância geográfica.

Por trás destes versos existe uma história menos visível mas fundamental: a dos escritores paraguaios que, expulsos pela perseguição política, encontraram em outros países espaços para continuar criando e resistindo. Entre eles destacou-se Elvio Romero, com quem Neruda manteve uma estreita amizade durante os anos do exílio em Buenos Aires. A literatura se convertia assim em território de encontro, onde a solidariedade política e artística transcendia as fronteiras nacionais.

Complexidade e diálogo crítico

A relação entre Neruda e o Paraguai não esteve isenta de complexidade. Um episódio particularmente significativo gira em torno do poema "Doctor Francia", dedicado a José Gaspar Rodríguez de Francia. Nesta composição, Neruda construiu uma imagem crítica do governante, utilizando linguagem confrontacional que contrastava com as narrativas históricas que a sociedade paraguaia havia desenvolvido em torno desta figura política.

Este episódio revela que o vínculo entre Paraguai e Neruda não se baseou unicamente em admiração mútua. Também incluiu discussão, desacordo e intercâmbio intelectual, refletindo a complexidade característica dos autênticos diálogos entre culturas e pensadores.

Um legado que permanece

O busto na praça das Américas continua sendo testemunha de uma conexão que desafia as concepções convencionais de proximidade geográfica. A presença do poeta chileno em Assunção se sustenta no poder da palavra escrita, na memória compartilhada e no reconhecimento de lutas comuns. Sua obra e sua relação com o Paraguai permanecem como convite a refletir sobre como a literatura e o pensamento crítico podem construir pontes entre povos e tempos distintos.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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