Missões jesuíticas: legado vivo de evangelização e cultura guarani
A solidez arquitetônica de estruturas que alcançam os 400 anos de antiguidade nos sítios de Santíssima Trindade do Paraná, Jesus de Tavarangüé e São Cosme e Damião projeta uma experiência histórica que continua gerando estudos e descobertas sobre a obra conjunta entre evangelizadores e povo guarani.
A admiração pela organização do trabalho e a temporalidade destes muros se reflete na experiência dos visitantes das missões jesuíticas guaranis localizadas em Itapúa. Compreender mais profundamente estas estruturas representa, segundo especialistas, uma dívida histórica que vai se saldando gradualmente.
Valor educativo e patrimonial
O sacerdote jesuíta Simón Martínez Jara assinala que "a educação do Paraguai deveria resgatar mais sua história como parte de nossa identidade, patrimônio da vida e da cultura guarani". Destaca como ensinanzas fundamentais das missões a opção preferencial pelos mais vulnerados, a promoção da inculturação para compreender novas culturas, e a construção em sinodalidade de espaços de vida e plenitude humana.
Estes sítios foram reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Congresso internacional demonstra interesse crescente
Isabelino Martínez, presidente do comitê acadêmico do Congresso Internacional das Missões Jesuíticas Guaranis, destaca que em junho deste ano realizou-se a quarta edição do evento, com mais de 40 expositores de 12 países. "Esta foi a primeira edição iberoamericana e estamos muito satisfeitos com os resultados", comenta sobre a experiência desenvolvida em Posadas, Argentina.
O congresso reflete o interesse contínuo que estas missões despertam em nível mundial. Historicamente, foram aproximadamente 30 missões localizadas em territórios do que hoje são Paraguai, Argentina e Brasil, que em seu momento de esplendor organizaram mais de 150.000 indígenas guaranis.
Pesquisa multidisciplinar
As apresentações no congresso abrangeram arqueologia, arquitetura, língua guarani, história e sociologia. A participação incluiu desde pesquisadores de instituições como a Universidade da Sorbona até representantes de comunidades guarayas da Bolívia, ampliando a perspectiva de análise sobre estas experiências históricas.
Martínez, também diretor do Museu Jesuítico Diocesano de Santa Maria de Fé, destaca que a província jesuítica constituiu uma grande experiência de vida religiosa que, a partir da compreensão do mundo guarani, funcionou como resguardo ante a escravidão. "Ali surgiram expressões excelsas da arte, em particular na música e na parte escultórica. Santa Maria de Fé foi o sítio do primeiro grande colégio escultórico na América Latina", aponta.
Modelos de convivência e solidariedade
Um aspecto destacado é o valor outorgado aos modelos indígenas na proposta de vida social baseada na solidariedade e no 'jopói', expressão que implica as mãos abertas e a entrega ao outro. Este conceito fundamentou um modelo econômico que permitiu dar vida às missões jesuíticas com características democráticas.
Na tradição guarani, um verdadeiro líder deveria crescer em qualidades para cuidar de sua comunidade. Os jesuítas, ao descobrir este nível de convivência, entrelaçaram a religião cristã com o misticismo guarani, criando espaços únicos de interação cultural que especialistas consideram relevantes para refletir sobre modelos de convivência no século XXI.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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