Guerra Guasu: Resgata-se um capítulo apagado da contenda
Livro recupera tradição oral sobre 30 mulheres que teriam sido assassinadas durante a Guerra contra a Tríplice Aliança em mina de enxofre em Valenzuela
Um livro escrito por Virgilio Cantero e Nelly Vázquez recupera a tradição oral sobre 30 mulheres que teriam sido assassinadas durante a Guerra contra a Tríplice Aliança, em uma antiga mina de enxofre ubicada a poucos quilômetros do centro histórico de Valenzuela.
A obra reúne documentos, testemunhos e relatos transmitidos por gerações, embora apresente o episódio como uma hipótese que ainda requer maior investigação histórica.
Um relato que durante gerações permaneceu na memória dos habitantes de Valenzuela agora busca ser documentado e conhecido pelas novas gerações. Trata-se da história das chamadas "30 mulheres de Minas Cué", que, segundo a tradição oral, teriam sido assassinadas durante a Guerra contra a Tríplice Aliança, em 1869.
A história é coligida no livro Minas Cué. Cuentan que eran 30, escrito por Virgilio Cantero e Nelly Vázquez, pesquisadores vinculados ao resgate da memória histórica e à promoção cultural de Valenzuela.
O episódio situa-se em uma antiga mina de enxofre que funcionava a poucos quilômetros do centro histórico da cidade. Durante a guerra, o local tinha importância estratégica devido ao fato de que o enxofre extraído era trasladado até San José para elaborar pólvora.
De acordo com a memória popular, quando as tropas aliadas avançaram sobre a zona, as mulheres que trabalhavam na mina teriam decidido permanecer no local e resistir, apesar da ordem de evacuar. Posteriormente, sempre de acordo com essa tradição, foram capturadas e assassinadas.
Porém, os autores esclarecem que esse episódio não pode ser apresentado ainda como um fato plenamente comprovado. "Em Valenzuela há a tradição oral de que aqui morreram 30 mulheres, mas não se têm documentos fidedignos para demonstrar isso", explicou Cantero.
HIPÓTESE. Por esse motivo, Minas Cué. Cuentan que eran 30 apresenta o relato como uma hipótese e busca aportar elementos que permitam continuar investigando o que ocorreu realmente naquele sítio durante a guerra.
Um dos documentos encontrados pelos autores é um manuscrito de Zenón Ramírez, segundo no comando das instalações da mina de enxofre, enviado em 1918 a Juan Silvano Godoy, diretor da Biblioteca, Museu e Arquivo Nacional.
A missiva aporta dados sobre o funcionamento da mina, a extração do enxofre, os trabalhadores e as circunstâncias que rodearam a evacuação do local ante o avanço das tropas aliadas. Também menciona a presença de um engenheiro inglês e um suposto processamento de ouro nas instalações.
Mas a carta não menciona diretamente as mulheres nem confirma o episódio das 30 vítimas. Para Cantero, essa ausência também demonstra a necessidade de seguir buscando fontes que permitam contrastar a tradição oral.
Outro elemento utilizado na investigação é o testemunho de María del Rosario Velázquez, uma mulher nascida em Valenzuela em 1857, que teria tido 12 anos quando ocorreram os acontecimentos. Seu relato foi coligido pelo professor Anuncio Salinas, pai da professora Benita Salinas, que posteriormente continuou o trabalho de preservação da história comunitária.
A partir dessas fontes, os autores constroem um relato que combina fatos e personagens da época com recursos de ficção. A intenção, segundo Cantero, não é unicamente reconstruir um episódio da guerra, mas utilizá-lo como uma porta de entrada para que crianças e jovens conheçam a história de sua comunidade. "A ideia que fazemos com este livro é apresentar esse fato através de um conto e que isso seja como uma espécie de disparador para outras gerações, para outros pesquisadores", afirmou.
A obra também busca colocar em discussão o valor da tradição oral como parte da memória histórica. Para Cantero, numerosos acontecimentos locais ficaram fora dos grandes relatos nacionais, apesar de formarem parte da história do país.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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