Em Vídeo | "Cartéis gringos": as gangues que vendem nos EUA a droga produzida na América Latina (e por que não têm chefões como "El Chapo")
Estados Unidos é um dos maiores mercados de drogas do mundo. No entanto, não se conhecem grandes chefões do narcotráfico ao estilo do mexicano "El Chapo".
Durante o século XX, o país viu surgir figuras emblemáticas do crime organizado como Al Capone e John Gotti, que construíram poderosos impérios ilegais e dominaram as manchetes.
Mas, com o passar do tempo, não emergiu uma figura equivalente no negócio ilegal do tráfico de drogas.
Em agosto de 2025, a declaração de culpa de Ismael "El Mayo" Zambada, antigo líder do cartel de Sinaloa, marcou um novo capítulo na luta contra o narcotráfico.
Em um tribunal de Nova York, Zambada admitiu ter traficado enormes quantidades de droga para os Estados Unidos durante décadas.
Para as autoridades norte-americanas isso significou uma vitória histórica.
Pam Bondi, que foi procuradora-geral dos EUA, ressaltou uma mensagem que as autoridades deste país repetem uma e outra vez: os grandes cartéis latino-americanos são os responsáveis por inundar os Estados Unidos com drogas.
No entanto, segundo o jornalista Jesús Esquivel, esta narrativa deixa de fora uma peça fundamental: quem se encarrega de distribuir essas drogas dentro dos Estados Unidos.
Esquivel, autor de uma investigação de vários anos intitulada "Los carteles gringos", sustenta que existem redes locais — gangues e clubes — que cumprem esse papel.
Segundo o FBI, há mais de 30.000 gangues no país, com cerca de 1,4 milhão de membros. Grupos como Hells Angels ou Latin Kings participam no transporte, venda e distribuição de droga, além da lavagem de dinheiro.
Embora nem todos os especialistas concordem em qualificá-los como cartéis.
Para o ex-agente da DEA Mike Vigil, as gangues norte-americanas carecem do poder paramilitar, da capacidade transnacional e da infraestrutura dos cartéis da América Latina.
Na mesma linha, Steven Dudley, da Insight Crime, assinala que esses grupos não têm a capacidade de corromper governos nem de desafiar o controle do Estado.
Ao contrário dos cartéis latino-americanos, aponta, essas organizações não operam sob uma estrutura centralizada.
Não existe um "chefe dos chefes", mas múltiplas células independentes com líderes locais. Seu controle territorial é mais fragmentado: dominam bairros, ruas ou mesmo esquinas. Esta estrutura descentralizada lhes dá flexibilidade e as torna mais difíceis de desmantelar.
É esta diferença estrutural que também ajuda a explicar por que não existe um grande capo nos EUA.
A forte presença de agências de segurança, junto com duras sanções, faz com que os líderes criminosos evitem a notoriedade. Além disso, o próprio modelo descentralizado do negócio não requer uma figura dominante.
Para Esquivel, está claro que os cartéis mexicanos e os de outros países exercem uma violência e poder diferentes dos grupos que traficam nos EUA, mas sustenta que neste último país existe uma extensa presença de redes de tráfico e venda de droga.
E sustenta que aos funcionários da DEA e de outras agências governamentais não lhes convém falar de "cartéis norte-americanos".
"Se o divulgassem como tal, não teria o mérito político para pressionar outro país como o México, agora sob a ameaça de Donald Trump de invadir com militares para combater o narcotráfico", disse Esquivel à BBC Mundo.
"Não querem falar de duas coisas muito simples: primeiro, que já têm cartéis, e segundo, que descuidaram um problema de saúde e de educação pública que agora é gigantesco e muito complicado de parar".
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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