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Cultura

Duas vozes de mulher, dois álbuns esplêndidos

14/08/2026 07:45 4 min lectura 11 visualizações

Não há estabilidade aqui/ o segredo é surfar, canta Nat Mendoza, com sua voz calorosa, emocional, mas ao mesmo tempo reflexiva e sem o desespero da derrota. Tenho para mim que são dois dos versos mais certeiros que se tenham escrito na música paraguaia destes tempos, psicossocialmente, ainda que sua verdade seja por suposto universal. Ñembo'e tem a cadência de uma guarania, o toque jazzístico do baixo que é a companheira de Mendoza, a interpolação rapera guaranítica de Avakuete, os versos em jehe'a bilíngue.

A canção é representativa da qualidade e da profundidade da proposta de Karakú (2026), o esplêndido álbum de Mendoza, cheio de sons ocidentais e orientais, brancos, negros, indígenas e mestiços. A voz de Mendoza é por aqui um achado agradecido. É certo que seu registro mezzo-soprano e esses matizes de contralto nos graves têm a marca típica das grandes cantantes do folclore latino-americano, mas apesar de que no Paraguai tem havido e há vozes femininas desta tradição, poucas tão latino-americanas e, há que se dizer, tão paraguaias como a de Mendoza, em castelhano e guarani. Em sua faceta mais terna, por outro lado, sua voz me recorda felizmente aquela bela e já aposentada voz de Claudia Abente, histórica cantante de Sembrador.

Desde a agitada e ritual intro de 45 segundos, Altar até essa canção cantada em três idiomas para dançar à brasileira que é a última faixa, Olhos de mar, Karakú agita bem o ponto nevrálgico da música popular contemporânea onde confluem os estilos, as épocas, os testemunhos, os projetos, as celebrações e as críticas.

Sua versão de Lidia Mariana, de Quemil Yambay, que se abre com o mesmo redobro marcial com que se encerra a que é talvez a canção mais pop do disco, Intensa, tem nas cordas a intensidade da música que se toca ao vivo, um jahe'o profundo na voz como corresponde. Não é a única versão:

Eu venho oferecer meu coração
, de Fito Páez, emociona por seu claro sentido criativo, na simplicidade fugitiva.

A voz de Lizza Bogado é a voz de uma senhora da guarania. Este cronista ainda recorda quando, há vinte e cinco anos, ouviu pela primeira vez sua versão gravada ao vivo de Nde resa kuarahy'ame –versos daquele gênio da língua guarani, Teodoro S. Mongelós; melodia plena de sentimento do grande violinista Julián Alarcón–, com a rotundidade dramática de uma mezzo-soprano apertando a garganta na emoção dos graves de peito. Ao vivo, escutada em qualquer fileira de poltronas, Bogado é sinônimo de excelência vocal, de sutilezas e de remansos.

Depois de uma carreira consolidada e vários discos, Bogado retornou no ano passado com uma obra ambiciosa: Señora Guarania. Uma tremenda homenagem ao gênero, do tipo que fizeram no passado Lobito Martínez ou Ricardo Flecha, com colaborações reputadíssimas e felizes: Ismael Ledesma em Flores de Asunción, a composição do harpista que abre o álbum com um tributo ao tótem da guarania: José Asunción Flores; Agüita mansa e Resiliente, com Esteban Godoy (uma presença agradecida e sugestiva no piano) e Juan Cancio Barreto; Soy la mensajera, com Juan Ramón González, entre outras peças.

Mas a versão que resume o álbum é Lejanía, de Herminio Giménez. Porque tem a profundidade irrecusável que vinte e cinco anos atrás tinha Nde resa kuarahy'ame; porque o piano de Godoy entende perfeitamente o que é acompanhar a voz de Bogado, elevá-la; porque estamos não só diante de uma guarania, já que os acentos de Bogado, suas fraseologias, às vezes fazem fronteira com o jazz, às vezes com o blues, atualíssimos em seus matizes. Canta em português também aqui.

Em 1952, esta guarania de Herminio foi editada em língua portuguesa no Lado B do single de Cascatinha & Inhana, que no Lado A tinha India, de Flores. 500 mil cópias daquele single foram vendidas naquele ano. O Brasil tinha 50 milhões de habitantes: 1% dos brasileiros escutava...

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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