Diálogo sobre a presença afrodescendente na história paraguaia
Uma análise sobre a identidade silenciada
O programa Expresso exibido pelo canal GEN contou com a participação do periodista e ativista César Chávez e da docente Gloria Domínguez, que desenvolveram uma profunda conversa sobre a presença de africanos escravizados e afrodescendentes na história paraguaia, e como o silenciamento por omissão mantém essa realidade como uma verdade negada e desconhecida no presente.
O diálogo se enquadra no contexto do debate social sobre racismo no Paraguai, que tem gerado discussões ativas tanto nas redes sociais quanto em espaços políticos.
A afrodescendência como identidade silenciada
Segundo Gloria Domínguez, a afrodescendência e a presença dos kamba e morenos constituem uma identidade silenciada dentro da história paraguaia. Ela explicou que esse silenciamento foi sistemático, envolvendo tanto o Estado quanto a Igreja na construção de uma narrativa histórica que omitia essas presenças.
Domínguez apontou exemplos concretos de como essa omissão opera:
"quando se lê a história e se menciona que em determinado lugar havia 1.000 almas, essas almas se referiam somente às almas brancas"
O sistema estrutural do silenciamento racial
César Chávez ampliou a análise explicando que o silenciamento racial no Paraguai faz parte de uma estrutura mais ampla que caracteriza a região americana e, particularmente, a América Latina. Destacou que embora o Paraguai tenha alcançado sua independência política, isso não significou o fim da escravidão.
A escravidão no Paraguai foi abolida no ano de 1870, décadas depois da independência nacional. Chávez enfatizou que essa defasagem temporal é fundamental para compreender a história do país.
Segundo sua análise, o sistema escravista não nasceu de concepções baseadas na cor de pele ou no lugar de origem das pessoas, mas de considerações econômicas que beneficiavam um grupo étnico específico.
"O racismo é o resultado desse sistema escravista, dessa estrutura que enriqueceu determinados setores"
Ausência na educação e na cultura
Gloria Domínguez apontou que o tema da afrodescendência está totalmente ausente na literatura de estudos de colégios, escolas e universidades. Essa ausência se estende até mesmo a eventos históricos fundamentais como a Independência paraguaia.
Domínguez mencionou que, segundo a historiadora Ana Barreto, havia pessoas escravizadas que fizeram parte da Revolução de Maio, mas até o momento não é possível conhecer os nomes daqueles escravizados que também estavam junto aos patriotas.
A representação artística também reflete essa omissão. Como apontou no diálogo, nenhum artista plástico incorporou a figura de um kamba nos quadros históricos da Independência.
Rumo a uma história mais inclusiva
O diálogo evidencia a necessidade de reexaminar os relatos históricos nacionais para incluir a experiência e presença das populações afrodescendentes. Essa revisão requer um esforço conjunto no âmbito educativo, cultural e acadêmico para reconhecer e documentar as contribuições desses grupos à formação da sociedade paraguaia.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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