Contas claras
A reunião convocada pelo ministro pode se converter no ponto de partida para enfrentar um problema que o Estado paraguaio vem arrastando há mais de uma década: a acumulação de obrigações com seus fornecedores que não aparecem refletidas nas contas fiscais quando são produzidas. Na reunião se falou de obrigações não reconhecidas que no total superariam os USD 1.280 milhões.
A discussão poderia reduzir-se a determinar qual governo gerou cada obrigação. Seria politicamente simples, mas provavelmente pouco útil. Tentaram, mas lembrei que recebemos do governo 2013-2018 obrigações pendentes de registro por mais de USD 300 milhões. E esqueceram-se de mencionar os gastos rígidos – de mais de USD 800 milhões – que este governo incorporou ao orçamento sem fonte de financiamento (necessários mas insustentáveis) e que hoje competem com o MSP e o MOPC pelos recursos disponíveis, o que poderia explicar boa parte dos atrasos.
Devemos apontar para ter contas claras, desenhar um mecanismo que permita registrar, identificar e transparentar todas as obrigações assumidas pelo Estado, independentemente do momento orçamentário em que terminem sendo pagas. Saber exatamente quanto devemos, a quem devemos e em que conceito. Adotar o sistema de competência.
Por outro lado, haveria que corrigir um desajuste estrutural: os contratos plurianuais convivem com um Orçamento anual, um Plano Financeiro anual e um Plano Anual de Contratações que não estão alinhados entre si. O contrato plurianual é uma ferramenta legítima e necessária; haveria que aperfeiçoar seu uso e torná-lo mais eficiente na hora de controlar o gasto.
A saúde pública é provavelmente o exemplo mais evidente. A demanda de medicamentos e prestações de saúde vem crescendo de maneira sustentada, sem que a arrecadação a acompanhe. O investimento em infraestrutura hospitalar se duplicou nos últimos anos e há mais hospitais em construção; fazê-los funcionar adequadamente será todo um desafio financeiro. O impacto das doenças catastróficas, os tratamentos de alto custo e os amparos judiciais obrigam o sistema público a prover terapias além de suas receitas e de forma desordenada.
E não esqueçamos que em infraestrutura estamos atrasados em investimento de cerca de 25.000 milhões de dólares para melhorar a vida das pessoas.
Assim como se construíram espaços para consensuar reformas tributárias, regras fiscais ou respostas extraordinárias frente a crises, esta administração pode utilizá-los para construir um acordo igualmente relevante: transparentar completamente as obrigações do Estado, estabelecer regras uniformes para seu registro e desenhar mecanismos que alinhem os compromissos plurianuais com a verdadeira capacidade fiscal do país e migrar para uma regra fiscal mais eficiente (regra de ouro + âncora de dívida + conselho fiscal independente), pois a que temos, que foi muito exitosa, nos trouxe até aqui.
O problema foi revelado. As contas fiscais devem refletir a realidade. As necessidades existem e o Estado não pode ignorá-las e se eu fosse eles, revisaria a convergência para 2018, equivocar-se outra vez seria letal e deixariam esse compromisso ao próximo governo.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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