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Sociedade

Babel no escritório

20/06/2026 11:01 3 min lectura 7 visualizações

Em Assunção, às três da madrugada, um sistema examina um currículo e o descarta em uma fração de segundo, com rapidez, sem rancor, sem malícia visível. Não existe o cansaço, tampouco os preconceitos que se confessam frente ao espelho. Talvez não decida. Talvez apenas execute. Para a máquina é um número. Para quem fica de fora, um abismo.

No mesmo horário, em Ciudad del Este, outro sistema envia avisos de demissão para quem não atingiu a cota. A empresa dorme. A máquina trabalha. A decisão circula sem alma.

A inteligência artificial não desce pura sobre nossas empresas: chega cercada de nossas mãos. As mãos de quem a desenha, a compra, a treina e depois as lava diante daquelas decisões. Essa é a armadilha. Como adverte Magnifica Humanitas, a tecnologia "toma o rosto de quem a concebe, a financia, a regula, a utiliza". Não é má. Mas tampouco é inocente. Por isso a pergunta nunca é só técnica: é moral.

A empresa quer ser eficaz e é compreensível. Também quer ser inocente e isso já é mais difícil: a IA lhe oferece fazer passar por necessidade técnica o que continua sendo uma decisão humana. O algoritmo pode ser ferramenta; entretanto, quando toma decisões, quando cria elementos, passa a ser um agente ativo das decisões da empresa.

Naquela inclinação, a empresa levanta sua própria Babel: uma torre veloz, admirada por fora, onde as ordens descem de um andar que ninguém conhece. Babel não se deteve por falta de tijolos nem fracassou por falta de engenharia: deteve-se quando seus construtores deixaram de compreender-se e ficaram presos atrás do muro da torre.

Neemias propôs o contrário. Diante de uma cidade destroçada, não esperou um plano perfeito nem levantou uma torre. Não houve espetáculo. Distribuiu a obra e cada família reconstruiu o trecho que tinha frente à sua casa. A grandeza não estava na altura, mas na responsabilidade compartilhada. A sinodalidade feita cotidianidade, uma forma de construir juntos — inclusive de construir juntos a inteligência artificial —, sem abandonar à máquina aquilo que exige juízo moral. Cada empresa tem seu trecho: capacitar antes de substituir, conversar antes de automatizar, revisar o algoritmo, explicar e se necessário, sentir no corpo a decisão que afeta uma vida.

Um algoritmo não tem consciência. Uma empresa sim deveria tê-la, porque quando ninguém responde não se torna moderna: torna-se inabitável.

No Paraguai são três da madrugada, os empregados dormem, a IA continua acordada e atrás daquele currículo há um paraguaio comum: alguém que madruga, sustenta os seus e espera uma oportunidade. Talvez nunca saiba que o afastou uma regra, uma correlação, uma sombra estatística. Seu destino e o da empresa que o rejeitou são, no fim, o mesmo. Nenhuma torre se sustenta sem comunidade. Nenhuma comunidade se constrói sem olhar nos olhos. Ou levantamos juntos uma cidade onde caibamos e vivamos todos — também com a inteligência artificial —, ou não teremos construído nada que mereça ficar de pé.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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