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Paraguai

Aos 17 anos escreveu para entender a tragédia do Ycuá Bolaños: a carta que ressurge 22 anos depois

Testimunho de uma jovem que buscou compreender a maior tragédia civil do Paraguai através da escrita

02/08/2026 01:46 4 min lectura 23 visualizações

Uma carta desde o dolor coletivo

No 22º aniversário da maior tragédia civil do Paraguai, divulga-se o testemunho que escreveu uma cidadã de 17 anos em busca de entender os eventos daquele dia. Embora ela não tenha perdido familiares nem amigos no incêndio, foi profundamente atravessada pelo dolor coletivo que significou a morte de 400 pessoas.

Yesica Vera Zarza escreveu uma carta naquela mesma noite para tentar compreender o ocorrido e para sobreviver emocionalmente ao que observava nos meios de comunicação e percebia no ambiente do país.

"Lembro daquele domingo. Estava ensolarado e minha avó de 82 anos estava sentada em sua cadeira de rodas. Junto com minha família acompanhamos durante horas o desenvolvimento de uma notícia que terminaria marcando todo o país", comenta a autora em seu relato.

A jovem ressalta que escreveu a carta tentando compreender uma tragédia que deixou uma marca profunda na nação. "Hoje continuo acreditando que a escrita é uma forma de memória. Por isso compartilho estas palavras juvenis, que conservam intacta a comoção daquela data", expressa.

A carta: um testemunho de 2004

1º de agosto de 2004

Querido Amigo:

Escrevo-te esta carta para contar-te algo estranho que ocorreu hoje. Ao acordar esta manhã, não tinha ideia do presente que meu pai havia preparado. Foi uma manhã como qualquer outra, mas esta tinha um brilho especial.

Vesti-me e fui visitá-lo em sua casa, como todos os domingos. Estive lá durante uma hora, escutando suas palavras e tendo uma conversa genial. Ao sair, decidi ir almoçar no supermercado para o qual ia habitualmente. Cheguei ao lugar e encontrei-me com amigos com quem estive conversando um momento. Enquanto isso, observava como as crianças brincavam felizes na praça de jogos.

Conversei com um amigo e ele me disse que havia ido com sua família celebrar o aniversário de um de seus filhos e apontou onde estavam sentados almçando. Cumprimentei-os de longe. Como ele, havia famílias inteiras fazendo compras ou almçando. Outros estavam sozinhos, comprando apressadamente algum ingrediente que lhes faltava para preparar o almoço.

Foi ao despedir-me dele, quando me virei e vi como uma parte do teto do supermercado estava sendo consumida pelas chamas. Todos começaram a correr. O supermercado desabava.

Assim que começou todo aquele desastre, vi como meu pai vinha junto a mim e me disse: "Filho, temos que sair daqui". Enquanto eu lhe perguntava o que ocorria, ele falava com uns homens altos, grandes, que suponho eram seguranças, porque estavam junto com meu pai, ajudando a sair do lugar as pessoas. Não se ouviram gritos de desespero ou de auxílio, porque parecia que todos estavam tranquilos. Além disso, tudo foi muito rápido.

Quando tentaram tirar as pessoas do supermercado perceberam que as portas estavam fechadas. Foi no instante em que nos levaram por um longo e estreito corredor, onde havia uma claridade incomensurável e um silêncio transbordante. Eu me perguntava, se o supermercado contava com um lugar tão belo, por que nunca o tínhamos visto?

Meu pai e os homens, que por sinal vestiam de branco e transmitiam uma luz incessante, voltaram em busca de mais pessoas mas já não havia ninguém. Todos haviam conseguido escapar, alguns com ajuda de homens e mulheres com roupa amarela, outros com ajuda de pessoas que haviam colaborado. Graças a meu pai foram muitas as pessoas que conseguimos sair pelo corredor, sem nenhuma ferida no corpo. Ao contrário, nos sentimos como se nos tivessem tirado um grande peso de cima, como se voássemos.

Mas depois, indignado me senti quando vi meu pai retornar sozinho, sem ter salvado mais vidas. Tantas perguntas lhe fiz, tanta foi a f...

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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