A história também se escreve com o coração
Há dias que um país jamais esquece. Não porque vença uma partida de futebol, mas porque volta a encontrar-se consigo mesmo.
O 29 de junho de 2026 será lembrado pela classificação do Paraguai aos oitavos de final da Copa do Mundo após eliminar a Alemanha nos pênaltis. Assim ficará registrado nos livros, mas quem esteve lá sabe que ocorreu algo muito maior. Naquela tarde não apenas caiu um tetracampeão do mundo. Naquela tarde, o Paraguai recuperou uma parte de si mesmo.
A ilusão esteve presente desde que amanheceu. Era difícil explicar por quê. Talvez fosse a ansiedade própria de uma partida decisiva. Talvez fosse a fé de um povo que nunca deixou de acreditar. Ou, quiçá, era aquela sensação que aparece raramente e que o futebol, caprichosamente, costuma confirmar.
Boston amanheceu vestida de vermelho, branco e azul. Milhares de paraguaios caminharam durante horas com um sorriso desenhado no rosto, ainda que no fundo todos soubéssemos que o desafio era gigantesco. Do outro lado esperava a Alemanha, uma seleção acostumada a estas instâncias, um gigante do futebol mundial. Era, sem dúvida, Davi contra Golias. Contudo, ninguém parecia disposto a aceitar o papel de vítima.
A Casa Albirroja era uma festa na véspera. Bandeiras tremulando sem descanso. Tambores. Cânticos. Famílias inteiras chegadas de diversos cantos dos Estados Unidos, e também do Paraguai. Abraços entre desconhecidos que compartilhavam uma mesma ilusão. Naquele momento ninguém podia imaginar que estava prestes a viver a página mais gloriosa da história da Albirroja.
Quando o árbitro deu a ordem para começar a partida ocorreu algo estranho. Mal haviam transcorrido alguns segundos quando Julio Enciso encarou pela primeira vez e provocou um tiro de esquina. Foi uma jogada simples, quase insignificante, mas senti que escondia uma mensagem. Pensei, sem saber por quê: 'Este jogo não perdemos'. E aquela sensação foi crescendo durante a tarde.
O Paraguai jogou sem complexos. Sem medo. Sem se sentir menor que ninguém. Cada bola dividida parecia uma questão de vida ou morte. Cada carrinho, cada fechada e cada recuperação falavam de uma equipe disposta a deixar a alma sobre o gramado.
O centro de Matías Galarza encontrou Julio Enciso e o estádio explodiu. Não foi apenas um grito de gol. Foi um grito de esperança. Durante alguns segundos o mundo inteiro olhou para o Paraguai. Ali estava uma Seleção que não aceitava os prognósticos e que se animava a desafiar um dos gigantes do futebol.
A Alemanha reagiu, como reagem os grandes times. Encontrou o empate e obrigou a continuar sofrendo. Mas, curiosamente, a ilusão nunca desapareceu. Havia algo naquela tarde que fazia pensar que a história ainda tinha um capítulo reservado.
Chegaram os 120 minutos. O cansaço já não importava. Tampouco o relógio. Só existia o desejo imenso de continuar acreditando. E chegaram os pênaltis. Então, apareceu Orlando Gill.
O herói. Quando defendeu o primeiro senti que o destino começava a se vestir de albirrojo. Quando conteve o segundo imaginei que a façanha estava cada vez mais perto. Depois chegaram os erros de Antonio Sanabria e Fabián Balbuena. Novamente, o sofrimento. Novamente aquela sensação de que o futebol podia ser cruel.
Até que caminhou José Canale. Com uma serenidade admirável tomou carreira, chutou e a bola beijou a rede. O tempo se deteve. O que ocorreu depois é impossível descrever completamente com palavras. Lágrimas. Gritos. Abraços intermináveis. Pessoas que nunca se haviam visto fundidas em um mesmo abraço. Boston deixou de ser Boston. Durante alguns minutos foi Assunção, Encarnación, Ciudad del Este, Villarrica, Concepción. Foi o Paraguai inteiro batendo no mesmo ritmo.
Tive o privilégio de cobrir muitas partidas. Vi títulos, derrotas e classificações memoráveis. Mas j...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.
Paraguai emociona o mundo