Toda minha vida estudei como os vírus evoluem e sobrevivem, e agora aplico isso diante do agressivo câncer cerebral que tenho
O virólogo uruguaio Gonzalo Moratorio, que ajudou a blindar seu país durante a pandemia, enfrenta um glioblastoma e busca financiamento para tratamentos experimentais
"Quando precisávamos dele, ele esteve lá. Agora nos toca a nós".
Com essa frase, que está nestes dias na boca de muitos uruguaios, se anuncia um grande festival de música esta quinta-feira em Montevidéu. O evento arrecadará fundos para o tratamento de um cientista ao qual ainda hoje as pessoas se aproximam agradecendo seu papel crucial para "blindar" o país durante a pandemia.
O virólogo Gonzalo Moratorio "trabalhou com colegas para desenvolver testes nacionais de diagnóstico do vírus da covid-19 que ajudaram seu país a evadir uma cascata de infecções e mortes", apontou a prestigiosa revista Nature ao escolhê-lo como um dos 10 cientistas destacados no mundo nada menos que em 2020.
Moratorio, de 43 anos, é responsável do Laboratório de Evolução Experimental de Vírus do Instituto Pasteur de Montevidéu e professor da Faculdade de Ciências da Universidade da República, mas foi graças a seu papel como assessor governamental durante a pandemia que adquiriu fama nacional e internacional.
Desde há um ano o cientista padece de um glioblastoma, um tumor cerebral agressivo.
Seu tratamento no Uruguai e Brasil foi financiado inicialmente com fundos familiares e doações de instituições e indivíduos. Mas a imunoterapia que recebe atualmente requer a importação de medicamentos custosos.
Para custear essas despesas, o virólogo recorreu às instituições estatais pertinentes, como o Ministério de Saúde Pública (MSP), que negaram sua solicitação. Após recorrer à Justiça, uma magistrada ordenou às autoridades fornecer a medicação.
A sentença foi apelada pelo MSP, alegando entre outros motivos "equidade e justiça social" com centenas de pacientes em situação similar. Enquanto se decide a instância superior, o Estado uruguaio deve continuar garantindo a medicação.
Moratorio busca além disso acessar outro tratamento em fase experimental disponível: a terapia Car-T. Porém, para participar desse ensaio clínico é necessário pagar um "ticket" de US$ 1.000.000.
"Neste momento estou, mais que nunca, em uma luta por viver, por querer me aferrar e viver intensamente. Tenho uma filha de seis meses e prometi estar com ela quando completar 15 anos e dançar o primeiro baile", afirma o cientista.
De forma paralela ao seu tratamento, o virólogo continua pesquisando com seus colegas formas de vencer "um dos cânceres mais difíceis que existem", que é justamente o glioblastoma.
"Além da minha situação pessoal, sinto profundamente que tudo o que aprendermos hoje pode ajudar pacientes no futuro", acrescenta.
"A fé, a esperança e a confiança na ciência e na medicina nunca as perdi nem as vou perder".
¿Quando você foi diagnosticado e o que é um glioblastoma cerebral?
O glioblastoma cerebral me foi diagnosticado há exatamente um ano. No 23 de maio entrei em emergência com muito tédio, dor de cabeça e perda de noção e compreensão do que estava fazendo.
Um glioblastoma é um tipo de câncer cerebral muito agressivo que nasce diretamente no cérebro. Tecnicamente é classificado como um "glioma de alto grau", porque cresce rápido, invade o tecido cerebral próximo e tem uma enorme capacidade de se adaptar e mudar.
A forma mais simples de imaginá-lo é pensar em um tumor que não cresce como uma "bola" bem delimitada, mas mais como raízes que se infiltram entre os neurônios e as conexões neurais.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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