Quando a prudência fiscal se enfraquece
"Nem a prudência nem a prodigalidade fiscal se constroem de uma noite para o dia", apontam Paolo Mauro e seus coautores em um estudo do Fundo Monetário Internacional. Isso implica que a responsabilidade fiscal não se avalia por uma única decisão, mas pela direção que vão tomando as decisões sucessivas ao longo do tempo.
Existe um amplo consenso de que o 2003 marcou um ponto de inflexão para as finanças públicas do Paraguai. A partir de então se construíram instituições e regras que deram maior credibilidade à política fiscal. Essa confiança contribuiu a reduzir o custo de financiamento do Estado e, com os anos, a criar as condições para alcançar o grau de investimento.
A respeito disso, resulta oportuno revisar alguns fatos recentes. Cada um pode ter sua própria explicação e discussão, mas observados em conjunto mostram uma tendência ao enfraquecimento gradual de algumas regras básicas que ajudaram a construir essa credibilidade desde 2003.
O primeiro fato é assumir despesas permanentes com recursos transitórios. Hambre Cero é um bom exemplo, cujo propósito é sumamente importante. O problema é que se trata de uma obrigação que continuará ano após ano e que foi financiada inicialmente com recursos transitórios provenientes de uma das binacionais. A regra é simples: uma despesa recorrente necessita também de receitas recorrentes.
Um segundo fato é o crescente atraso com fornecedores do Estado, que pela primeira vez ocorre no meio de um mandato. O problema de fundo é que se assumiram compromissos acima dos recursos disponíveis. A consequência seria que os fornecedores percebam maior incerteza sobre quando receberão e incorporem esse risco aos seus preços, elevando o custo das compras públicas.
Um terceiro fato é recorrer à dívida para pagar despesas de funcionamento. Pode ser razoável tomar dívida para construir um hospital, uma rodovia ou outro investimento que prestará serviços durante muitos anos. Mas emitir dívida para pagar despesas correntes que se repetem todos os anos, como ocorre com a compra de medicamentos, se afasta de uma regra básica de prudência fiscal.
A isso se soma o não cumprimento da meta fiscal de 2025. No passado, as exceções foram fundamentadas e inclusive autorizadas legalmente. Sem uma justificativa clara, a regra perde gradualmente sua capacidade para disciplinar as decisões orçamentárias futuras. Além disso, isso poderia elevar a percepção de risco e, eventualmente, encarecer o custo de financiamento do Estado.
Algumas dessas práticas poderiam justificar-se em circunstâncias extraordinárias, como ocorreu durante a pandemia. A diferença é que os fatos recentes ocorreram em anos de alto crescimento econômico e não como consequência de uma emergência.
Também está a reforma da Caixa Fiscal. Seu déficit crescente é um dos problemas estruturais das finanças públicas. Contudo, depois de uma apresentação demorada e prolongado processo, a mudança aprovada não resolveu o problema de fundo. Perdeu-se uma oportunidade importante para corrigir um dos desequilíbrios que mais pressionarão sobre as contas públicas nos próximos anos.
Nenhum desses fatos, considerado isoladamente, permite definir a situação das finanças do Estado. Mas observados em conjunto mostram uma erosão de práticas de prudência construídas durante décadas. O risco é que quando as exceções começam a repetir-se, também se eroa a credibilidade que tanto tempo levou para construir.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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