O legado florestal do pós-guerra: como o reflorestamento japonês impacta nas alergias atuais
Uma crise de alergias sem precedentes
Em fevereiro, vídeos que circularam no Japão mostravam o que pareciam ser colunas de fumaça nas florestas. No entanto, tratava-se de enormes nuvens de pólen, alertando dezenas de milhões de habitantes sobre a chegada da temporada de alergias sazonais.
Cada primavera, pessoas de todas as idades em cidades de todo o Japão utilizam máscaras e medicamentos para combater a febre do feno causada pelo pólen. Esta condição, também conhecida como rinite alérgica, converteu-se em um desafio nacional significativo.
Aproximadamente 43% da população japonesa experimenta sintomas moderados a graves de alergia estacional, uma taxa consideravelmente mais alta que a de 26% no Reino Unido ou entre 12% e 18% nos Estados Unidos.
As alergias podem provocar insônia e dificuldade para se concentrar, além de aumentar a probabilidade de sofrer outras afecções como asma e alergias alimentares. No pico da temporada, o impacto econômico derivado das ausências no trabalho e da diminuição do gasto dos consumidores estima-se em aproximadamente US$ 1.600 milhões diários.
As decisões do pós-guerra que continuam impactando hoje
As raízes do problema atual remontam às décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, a escassez de petróleo e gás levou o Japão a recorrer intensamente ao seu recurso natural mais abundante: as florestas, que foram utilizadas como combustível para os lares e indústria.
Este consumo massivo resultou em um desmatamento generalizado. As montanhas que cercam cidades importantes como Tóquio, Osaka e Kobe ficaram praticamente desprovidas de vegetação, gerando riscos de deslizamentos de terra e inundações em diversas regiões.
Segundo explica Noriko Sato, professora e pesquisadora florestal da Universidade de Kyushu, depois da Segunda Guerra Mundial foram implementados projetos de reflorestamento em larga escala financiados com fundos públicos para prevenir a erosão do solo e restaurar as paisagens afetadas.
O monocultivo florestal como solução imediata
Com o objetivo de alcançar um reflorestamento rápido e efetivo, o governo japonês optou por uma estratégia de plantação massiva de apenas duas espécies autóctones de folha perene com crescimento rápido: o cedro japonês (sugi) e o cipreste japonês (hinoki). Estas espécies foram selecionadas por sua capacidade de reflorestal rapidamente as paisagens e fornecer madeira para a construção.
Atualmente, estas plantações ainda cobrem aproximadamente 10 milhões de hectares, equivalente a um quinto da superfície total do Japão.
Entretanto, um inconveniente significativo surgiu: tanto o sugi quanto o hinoki produzem grandes quantidades de pólen leve que se dispersa facilmente em direção às cidades. Este pólen, frequentemente liberado em grandes volumes pelas plantações de monocultivo, é responsável pela maioria das alergias sazonais no Japão.
O agravamento do problema
A situação intensificou-se nos últimos anos porque a maioria destes árvores alcançou os 30 anos de idade, estágio no qual liberam quantidades significativamente maiores de pólen. Este fenômeno afeta praticamente todas as plantações de cedros e ciprestes do país.
As alergias ao pólen converteram-se em um problema de saúde pública no Japão que requer atenção urgente
Em 2023, o governo japonês reconheceu oficialmente o problema ao declarar as alergias como um assunto de importância social nacional, evidenciando a magnitude do desafio que o país enfrenta.
Este caso ilustra como as decisões adotadas décadas atrás para resolver crises imediatas podem gerar consequências não previstos a longo prazo, requerendo enfoques inovadores para sua resolução.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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Paraguai. Conjuntura difícil