Cenas de geopolítica operística em Pequim
Que não fosse paródia não significa que Nixon na China não esteja repleta de ironias mordazes, de teatralidade imposta e, ao mesmo tempo, de honestidade profunda em uns líderes políticos tão díspares mas também propensos ao discurso verborrágico como defesa de suas concepções filosóficas, políticas, culturais e pessoais. Porque a ópera não apenas encena o público, mas também o privado: No terceiro e último ato, cada um dos casais do poder estadunidense e chinês se entregam ao canto do íntimo e do erótico.
Há melodias populares das que agitam o corpo, há pop acechante na voz de Nixon, há uns metais e umas percussões que lembram riffs ameaçadores do heavy metal, há repetições incessantes e rulos que bem podem ser parte do minimalismo típico que caracteriza a música de Adams, mas que bem podem ser parte de um rap agachado ou de um blues irônico e dolorido. Talvez por isto, segundo conta Goodman no prólogo do libreto, Adams buscava alguém que escrevesse bons dísticos, muito comuns no rap e em qualquer música popular, mas com o sentido poético e político que há no brilhante libreto de Goodman.
Trump esteve em Pequim pela segunda vez como presidente dos Estados Unidos. Não é o líder estadunidense que mais tenha visitado a China: George Bush Jr o fez quatro vezes; Barack Obama, três; enquanto que Bill Clinton o fez uma única vez, mas esteve lá nove dias passeando por diferentes cidades. Todos celebraram o acoplamento produtivo da China ao fluxo financeiro mundial: menos Trump. Por isto é quem lhe dá maior importância simbólica à visita, cenográfica, embora Xi Jinping tampoco fique para trás sob as formas chinesas. Neste sentido teatral e midiático, o presidente estadunidense atual só se compara com dois ex-habitantes da Casa Branca com os quais mantém uma afinidade ideológica histórica: o advogado e militar Richard Nixon e o ator Ronald Reagan.
Na primeira ária de Nixon na ópera, o barítono se regozija cantando repetitivamente: "As notícias têm uma espécie de mistério". É exatamente isso o que Trump e Jinping entendem com esta encenação em Pequim, para além do vai-e-vem tarifário. O bucólico passeio pelos jardines imperiais de Zhongnanhai, onde o chinês fez o estadunidense sentir o peso milenar da China em comparação com os mais imberbes de Estados Unidos. Como na ópera, houve algo de Wall Street e comércio no conclave, muito menos de filosofia à maneira clássica de Mao, porque a pseudofilosofia do pragmatismo campeia em ambos os lados.
A propósito, não parecem ser tempos maoístas na China, mas não é bem assim. Um revelador ensaio de Yinhao Zhang, publicado na Monthly Review em abril passado, faz notar como a nomenclatura comunista neoliberal que desterrou o pensamento de Mao, agora enfrenta seu ressurgimento sob um radicalismo político renovado que exige liberalização democrática; ou, mais paradoxal e massivamente, como uma popular filosofia de autoajuda entre os jovens, baseada em textos autobiográficos e combativos de Mao. Seus livros são os mais consultados nas bibliotecas chinesas e os jovens compartilham suas frases nas controladas redes digitais. Isto, Jinping e os seus têm algo de medo. A juventude sempre é "de cuidado" em qualquer tempo e lugar.
Nixon na China pode ser visto no YouTube, em várias produções. Sugiro a visualidade brutal da versão de 2012 pela Orquestra de Câmara de Paris, no Théâtre du Châtelet.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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