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O Índio Solari nos campos de batalha da liberdade

06/06/2026 05:00 4 min lectura 15 visualizações
El Indio Solari en los campos de batalla de la libertad

Los Redondos e o Índio Solari significaram durante meio século não apenas música, mas uma atitude ética ante a vida, nem sempre isenta de contradições; mas justamente disso se trata a vida, de contradições. Trata-se, cada dia menos, de atitude ética (que seria algo como um compromisso com a estética e a filosofia como forma de vida), razão pela qual a supressão terrena e palpável de um artista como o Índio pesa muito mais intensamente sobre as pessoas: Uma inquietante sensação de desamparo nos assalta, sobretudo para as gerações adultas, envelhecidas aos poucos com ou sem dignidade.

Esta morte, com a oportuna diferença musical e cultural do caso, me recorda o que há exatamente uma década uma amiga de infância de Luque me contou. O protagonista da anedota era o pai do namorado dela naquele tempo, habitante de uma vila populosa do noroeste de Luque. Tinha saído para festejar a noite anterior a 28 de agosto de 2016, de modo que ao regressar com a madrugada dominical não estava informado da morte de seu máximo ídolo: O cantor mexicano Juan Gabriel. Sua divertida esposa, então, tramou uma brincadeira como pequena vingança. Ao chegar o homem o acolheu com um café com leite bem quente e umas bolachas untadas com doce de leite. Esperou a que tomasse seus primeiros goles sobressaltados, na tranquila mornidão do lar, para deslizar a pergunta aparentemente inocente:

— Você ficou sabendo, piko?
O homem não a olhou, desinteressado, absorto em sua xícara.
— Morreu Juan Gabriel.
A xícara lhe escorregou das mãos e caiu sobre a mesa, preenchendo o ambiente de uma fragrância láctea.
— Não me faça essas brincadeiras!
— Não é brincadeira! Olha!

Ligou a televisão. Estavam falando disso, naturalmente, da morte de um artista.

O homem começou a chorar como nunca antes a mulher tinha visto, em seus muitos anos de casados: Molhava a mesa com suas lágrimas, enxaguando-as com o café com leite de uma manhã ressacuda de domingo. Tinha se morrido alguém que, efetivamente, formava parte viva de sua vida, ainda que tenha morrido em Santa Mônica, Califórnia, e nunca o tenha conhecido pessoalmente nem de longe. É a mesma morte agravante em primeira pessoa que afeta aos enlutados do Índio Solari.

A grande arte de Carlos Alberto Índio Solari foi, na opinião deste cronista, a da poesia. Sua misteriosa voz de barítono está, de fato, adaptada ao voo próprio das palavras, do jogo dos significados. A dele é uma alta poesia de bairro, de grande tradição argentina, como se o tango suburbano tivesse abandonado a previsível cadência do modernismo castelhano e se enchesse de um exquisito surrealismo remendado do Terceiro Mundo. Esta poesia de tonalidades graves e súbitas oitavas de palavras como facas criou, literalmente, uma congregação: As hostes de fanáticos que preenchiam as cidades para onde os Redondos, primeiramente, e o Índio Solari em solitário, depois, chegavam para viver algo mais que um show: O que o público mais fiel chama de Missa Ricoteira. Tanto nos anos dourados da banda, quanto nos últimos de experimentação pessoal, muitos paraguaios atravessaram a fronteira para ser parte daquela Missa, e as anedotas em torno de um acontecimento cultural em si mesmo se contam aos milhares.

Das demasiadas canções carregadas de verdade e estilo forjadas pela pena de Solari cito uma que se encontra no disco publicado há exatamente trinta anos, de uma vigência sonora e literária talvez sem igual: Luzbelito. No Blues da liberdade, o Índio Solari canta: "Meu..."

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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