O esforço pela micro deve ter a mesma relevância que a macro
A estabilidade macroeconômica é uma condição necessária, mas não suficiente para o desenvolvimento. O crescimento paraguaio depende em grande medida das exportações de matérias-primas, uma parte com algum nível de processamento, e de energia hidrelétrica. Este modelo de enclave gera grandes cifras no PIB, mas tem uma baixa capacidade de absorção de mão de obra e é altamente vulnerável aos choques climáticos e à volatilidade dos preços internacionais.
A lacuna entre a macroeconomia e a microeconomia se manifesta no mercado de trabalho. A informalidade, os baixos rendimentos e a incapacidade dos lares de sair e permanecer acima da linha de pobreza através do trabalho caracterizam a maioria dos lares paraguaios, o que significa que a maioria dos trabalhadores carece de seguridade social, contratos legais e acesso a créditos produtivos.
Para que o bem-estar chegue aos lares, é imperativo passar de uma economia de subsistência a uma de produtividade. As mipymes representam a grande maioria das unidades econômicas do país, mas operam com tecnologias obsoletas e baixa capacitação. A falta de uma política industrial clara e o escasso investimento em pesquisa e desenvolvimento limitam a criação de valor agregado, mantendo grande parte da população em empregos pouco produtivos.
Paraguay atravessa uma transição demográfica. O bônus demográfico —a abundância de população jovem em idade de trabalhar— está se reduzindo. A incapacidade de formalizar essa juventude hoje se traduzirá numa carga fiscal insustentável no futuro.
O sistema de saúde e de pensões apresenta desafios de sustentabilidade. Com apenas 1 de cada 4 trabalhadores contribuindo para um sistema de aposentadoria, o Estado paraguaio se verá obrigado a expandir programas não contributivos, como a pensão alimentária, financiados com impostos gerais. A pergunta é como financiar o bem-estar de uma população que envelhece com uma base tributária tão pequena e uma informalidade tão alta.
Nenhuma nação conseguiu dar o salto ao desenvolvimento sem um investimento massivo em capital humano. Paraguay investe a metade da média regional e longe dos 7% recomendados pela Unesco.
A qualidade educativa segue sendo o principal obstáculo para a competitividade. O sistema atual não está formando os jovens nas habilidades técnicas e tecnológicas que demanda o mercado global, o que perpetua o ciclo de pobreza, vulnerabilidades econômicas e baixa produtividade.
O desafio de Paraguay é transitar de uma estabilidade macro a uma estabilidade micro que garanta previsibilidade e segurança econômica aos lares. A macroeconomia sólida é um ativo valioso que deve ser utilizado como plataforma para reformas estruturais profundas, como a diversificação produtiva, a reforma do sistema de seguridade social para lograr sua universalização, o aumento do capital humano e o fortalecimento da institucionalidade pública para que responda ao bem comum e contribua a reduzir as desigualdades e não a beneficiar uma minoria.
Somente mediante um pacto social que priorize o bem-estar da microeconomia sobre os indicadores agregados, Paraguay poderá assegurar que sua atual estabilidade não seja uma miragem, mas o alicerce de um desenvolvimento sustentável e equitativo para as gerações atuais e futuras.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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A ilusão macroeconômica