O detonador solitário
A primeira é uma metáfora sobre quem tem o controle real. É uma mensagem à dissidência e aos seus próprios aliados. Ele continua decidindo quando e o quê explode na política paraguaia.
A segunda é o aviso de depuração interna: o líder está disposto a dinamitar acordos, estruturas ou lideranças se o ameaçarem. A terceira leitura é a mais incômoda: o espetáculo do poder quando já não consegue disfarçar sua fragilidade.
Se as interpretações são variadas, deve-se ao fato de se tratar da imagem bizarra da mais curiosa das crises da ANR. Todos dizem amar a Cartes, mas todos o traem. Ou, para ser mais preciso, todos parecem amar o Cartes que convém e trair o Cartes que manda. É também peculiar que tudo ocorra em um cenário de fragmentação da oposição.
Não há ameaça externa que, por enquanto, coloque em risco sua hegemonia; há, em todo caso, uma ameaça interna: sua própria lógica de poder.
Há outra imagem que percorre os corredores do poder: a de um Horacio Cartes cercado de ausências. A debandada dos ingratos foi silenciosa, mas perfeitamente sincronizada.
O homem que uma vez foi o manipulador de nossa política olha ao redor e descobre que os bonecos aprenderam a cortar seus fios. É um general que ficou sem tropa. Mas na outra calçada, há uma grande tropa sem generais: uma imensa máquina eleitoral que começa a ficar órfã de condução estratégica.
É por isso que Pedro Alliana enfrenta um problema paradoxal. Abandonou a Cartes porque este lhe queria impor um vice-presidente e agora, blindado pelo bloco de governadores, constata que tampouco tem autonomia para escolher um nome.
Já lhe disseram que sua ideia de fazer uma pesquisa não funciona. Seus novos tutores territoriais têm suas próprias exigências. Alliana conhece o velho aforismo:
Ter um vice-presidente é como dormir com alguém que todas as noites sonha secretamente em se tornar sua viúva. A ironia é que se trata da mesma coisa que pretendia eludir sob a ala do cartismo: o dilema da autonomia e do companheiro de chapa.
Os governadores, esses novos vice-reis que manejam os 600 milhões de dólares de Hambre Cero e que lhe juraram lealdade, não são homogêneos. Têm interesses díspares e competem com os de outro contingente político poderoso e de extração departamental: o dos deputados. Ensaiarão uma fórmula incerta: um cartismo sem Cartes. Alguns deles já mantiveram reuniões com Arnoldo Wiens. Parece difícil de entender? Pois, para usar um termo dos sociólogos, problematizemos ainda mais.
Falemos do sentido desse inexplicável abraço entre Cartes e Mario Abdo. Esse encontro entre dois arqui-inimigos históricos é o giro mais confuso de tudo isso. É claro que não se explica pela ideologia, mas pela sobrevivência do poder e pelo controle econômico. Primeira chave: o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Para Cartes, é uma forma de cercar o presidente rebelde; para a dissidência, uma oportunidade de reconfigurar forças. Segunda chave: o pragmatismo colorado. Suas brigas internas podem ser sangrentas, mas as alianças são líquidas. O que parece confuso em termos éticos é perfeitamente lógico na realpolitik paraguaia. Cartes recorreu a seu pior inimigo para demonstrar ao Santiago Peña que a estrutura da ANR pode asfixiar sua governabilidade.
Por último, duas coisas que dissemos muitas vezes: a bicefalia no poder não funciona e Cartes era um gigante com pés de barro. A estrutura do cartismo dependia de seu liderazgo econômico e desmoronaria se este fosse interrompido. Acaba de ocorrer: os rapazes encontraram outra fonte de financiamento. Isso sim: se eu fosse um deles, não estaria tranquilo vendo don Horacio se passeando com o botão detonador na mão.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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