O Autômata classista do rally
Gosto de chamá-lo de Autômata porque, diferentemente dos títeres, um androide de sua categoria tem, na realidade, uma certa autonomia complexa, mas é uma autonomia totalmente programada por um ser humano. É, em suma, uma máquina sem interioridade, indolente. Gosto de dizer, além disso, que faz parte do Bando dos Contrabandos, utilizando uma expressão extraída do romance Eu o Supremo, de Augusto Roa Bastos. Peña é um representante cabal da casta colonial e, depois, republicana que sempre conduziu este país como uma elite sem escrúpulos por natureza e definição: "Oligarcones" do gado, do dinheiro espúrio e da hipocrisia política. Roa os descreve incomparavelmente melhor:
"Prole dos que traíram o levantamento comunero. Aristocratas-iscariotes. Os que venderam a Antequera pela maldição dos Trinta Dinheiros. Bando dos contrabandos. Bando dos escamoteadores dos direitos do comum. Bastardos daquela legião de encomenderos. Rapazes da terra e do porrete".
Há duas semanas, existem mobilizações de diferentes setores sociais que, por diferentes motivos, exigem atenção dos poderes do Estado, mas sobretudo do esquivo Poder Executivo que encabeça o Autômata. Apresentam demandas sensíveis da população há décadas, aprofundadas precisamente pelas políticas de ganhos financeiros agroexportadores e imobiliários que caracterizam o capitalismo vernáculo gerenciado por economistas do Banco Central, como o próprio Peña. As demandas têm relação com a segurança, o trabalho e o meio ambiente e provêm de campesinos, indígenas, profissionais da saúde e vizinhos de comunidades.
Mas o Autômata da Chetada se encontra placidamente dedicado ao desfrute e à promoção de uma corrida automóvel no Sul (onde competem os sobrenomes stronistas de sempre, como em um clube de amigos ampliado internacionalmente). Para Peña, seus mandantes reais e sua granja de trolls o rally é, de fato, um assunto de Estado central para o país. Em seu automatismo, Peña expressa não só a indiferença e a indolência essenciais de sua condição "robótica"; mas, sobretudo, o caráter desmascarado do projeto classista que propugna o Partido Colorado com a hegemonia do cartismo.
Para estes renomados pilantras da classe alta geralmente assuncena, em conluio com a pilhagem internacional das classes altas da região, existem hierarquias entre os paraguaios: cidadãos de primeira, de segunda e de terceira. Estes dois últimos estão a serviço dos primeiros no imaginário social dos cartistas: os de segunda são reprodutores privilegiados da ideologia neoliberal, enquanto os de terceira são trabalhadores-escravos da acumulação capitalista e financeira do Paraguai colorado. Por isso é que nunca Peña recebeu nem receberá oficialmente ninguém que esteja abaixo dos primeiros a quem responde: por questões de classe.
O classismo deste governo não tem precedentes no Paraguai e está se convertendo, rapidamente, em uma virtude social para quem, nas camadas médias-altas, vive à base das prebendas e privilégios do Estado colorado. O Supremo roabastiano, respeito de um antepassa do Autômata pró-argentino, sentencia: "Despenho a Peña". Não é má ideia.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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