O auge do crédito também merece atenção
O Fundo não afirma que o crédito de consumo seja um problema em si mesmo tampouco questiona que mais domicílios tenham acesso ao financiamento. O que adverte é que um crescimento rápido e persistente do crédito precedeu, em numerosos países, episódios de instabilidade financeira. O objetivo não é evitar que as famílias se endividem, mas assegurar que o façam de maneira sustentável.
O aviso deu lugar a diversas interpretações, entre elas que o aumento do crédito seria evidência de um superendividamento dos domicílios sem um crescimento equivalente de seus ingressos. Contudo, essa não é a conclusão do Fundo.
Diante da polêmica, o Banco Central do Paraguai explicou que o fenômeno responde, em boa medida, ao fato de mais pessoas acessarem o crédito formal – os usuários passaram de 1 milhão a 2,3 milhões –, a economia e o emprego cresceram, aumentou o uso de cartões impulsionado por promoções, reembolsos e parcelas sem juros. Enquanto isso, a inadimplência continua em níveis baixos, mantendo o sistema uma alta solvência.
A explicação do BCP e o aviso do Fundo não são necessariamente contraditórios. Que o crescimento do crédito responda a fatores favoráveis não elimina a necessidade de vigiar se, com o tempo, começam a se deteriorar os critérios de concessão ou o perfil de risco de quem acessa o financiamento.
De fato, a evidência internacional aponta nessa direção. Diversos estudos do Fundo mostram que as expansões rápidas do crédito costumam terminar de forma abrupta e, com frequência, desembocam em crises financeiras ou fortes desacelerações (Elekdag e Wu, 2011). Nas economias emergentes também se observa um padrão recorrente durante períodos de forte crescimento econômico, aumento do preço dos ativos e expansão do crédito: o sistema financeiro parece sólido, mas é precisamente então que começam a se acumular vulnerabilidades (Mendoza e Terrones, 2008). Mais relevante ainda para o caso paraguaio, Barajas, Sakamoto e Zandvakil (2026) encontraram que cerca de 80% dos booms de crédito que terminaram em crise estiveram acompanhados por uma rápida incorporação de novos mutuários, ou seja, por um forte processo de inclusão financeira.
Por isso importa olhar além dos números agregados. A inclusão financeira explica parte do fenômeno, mas também importa saber quem são esses novos devedores, se possuem emprego formal, qual é sua relação dívida-renda, que tipo de crédito utilizam e quantos mantêm várias dívidas simultaneamente. Dessa composição depende o risco.
Em síntese, nem todo crescimento do crédito é uma má notícia. Costuma acompanhar o crescimento econômico e ampliar o acesso ao sistema financeiro. Mas quando é muito rápido e persistente, aumenta a probabilidade de que se acumulem vulnerabilidades. A história econômica mostra que os problemas financeiros raramente começam quando os indicadores já são preocupantes. Com frequência se gestam quando a economia cresce, a inadimplência permanece baixa e tudo parece indicar que não há motivos para se preocupar. Precisamente por isso o aviso do FMI merece atenção.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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