Novena, o exílio fílmico de Collar
Esta reflexão é produto da recente projeção do filme Novena, produção holandesa-paraguaia do ano 2010 exibida em Cine de Barrio, e de uma exposição antológica de seus quadros a óleo pertencentes ao acervo da coleção da Fundação POPA, montada nas salas de Casa Ardissone no passado mês de maio.
Pensar a ideia de fronteira e migração, literal e metafórica, exige coragem e empatia. Entender a memória de uma paisagem física desdobrada em outra social e cultural faz do filme Novena uma descarga elétrica, ao radiografar seu autor a dignidade humana de um povo de matriz guarani com uma visão universal.
As fronteiras não são apenas linhas nos mapas que Collar atravessa desde sua infância em Buenos Aires ou em sua maturidade atual em Roterdã: atravessam corpos, vidas e desejos. Cada deslocamento é uma epopeia que questiona certezas e anseios, convertendo a memória em bagagem.
Este tipo de ideias atravessa a sala escura de Cine de Barrio do bairro de Las Mercedes de Assunção, quando volto a ver Novena pela quinta vez. Tudo transcorre em uma sala escura com estrelas zenitais, uma caixa negra suspensa a dez metros do solo, e que comporta 25 pessoas por sessão. Cine de Barrio é o anseio do diretor Marcelo Martinessi e a gestão de Sebastián Arestivo convertido em realidade há quatro anos, com uma seleção finíssima de filmes artísticos e com atenção especial ao som e à imagem.
ÍTACA GUARANI
Após visionar Novena, o longa-metragem do pintor e cineasta Enrique Collar (Itagua Guazú, 1964) confirmamos a garantia e o legado desta joia fílmica. O filme concebe o exílio como uma estrutura que atravessa a história campesina e rural contemporânea paraguaia.
A estrutura narrativa é aparentemente simples: sintetizada em uma sequência temporal de nove dias, encena-se o ritual da religiosidade católica para honrar os falecidos, e assim desenvolver transversalmente um drama discreto e poderoso. O primeiro instinto, como insisto, é sentir esta história como a do exílio paraguaio, como uma viagem circular, similar à do herói Ulisses e seu retorno interminável à sua pequena Itaca, engrandecida na imaginação e na saudade.
Entrever desde um filme de ficção o drama da migração de centenas de milhares de paraguaios sem levantar quase suspeitas é o grande acerto de Novena. Aqui é onde os movimentos se entrelaçam com a própria biografia. Estas propostas de ir descobrindo este micro-mundo ou umbigo do Paraguai no qual se converteu Itagua revelam a potência poética e política de uma cinematografia que resgata memórias subalternizadas.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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