Minha esposa me provou que o amor pode vencer toda diferença física ou social
Uma história de 75 anos de compromisso, fé e dedicação entre dois corações que escolheram estar juntos apesar das adversidades
Quando tinha 5 anos toda a família se mudou para Concepción porque meu pai era pastor evangélico e foi enviado a pregar lá. Depois, quando terminou a revolução de 1947, a família inteira se estabeleceu em Assunção, onde terminei o colegial no "Comercio 1" e me formei em contador público.
Em 1951, minha vida mudou. Minha irmã Esther me pediu ajuda para ensinar contabilidade a ela e suas companheiras. Assim foi como conheci a mulher que transformaria minha vida, minha futura esposa Teresa, filha de dom Leopoldo Da Costa e Leopoldina Berino. Faz 75 anos e me lembro como se fosse ontem.
Seu pai foi um alto funcionário do Governo e tinha uma grande propriedade de 16 hectares no que hoje seriam os bairros de Recoleta e Tembetary. Teresa era muito inteligente e não era das que se complicavam. Era muito previdente, de solteira já tinha casa própria. Tínhamos apenas um ano de diferença, mas minha situação era muito distinta.
Era 1953 quando comecei a cortejá-la. Mas havia um pequeno detalhe: toda minha família tinha que se mudar para Montevidéu, Uruguai, por questões trabalhistas. Lá trabalhei em uma sapataria chamada "Montgomery" e aprendi a usar máquinas elétricas para fabricar calçados.
Teresa me provou que o amor é uma força que vence qualquer diferença física ou social. Assim que ia e vinha três ou quatro vezes ao ano para visitá-la e, é claro, lhe escrevia constantemente e ela também.
Em 1957 voltei definitivamente e trouxe comigo, graças à autorização de um diplomata paraguaio, as primeiras máquinas elétricas para abrir minha sapataria. Aluguei um salão na Pettirossi e percebi que para as pessoas era difícil pronunciar "Montgomery", então tirei o "t" e assim nasceu Calzados Montgomery, as pessoas adoraram.
Colocar em funcionamento essas máquinas também foi toda uma questão. Eram trifásicas e a corrente em Assunção era monofásica, não existiam as hidrelétricas ainda, havia uma usina a lenha em Sajônia que gerava corrente. Mas graças a um amigo consegui um medidor trifásico da ANDE e as coloquei para trabalhar.
Com o negócio já em andamento me anima e lhe propus casamento a Teresa. Nos casamos na igreja São Francisco de Assis. Nossa festa foi em casa de meus sogros, muito íntima. Minha família não pôde vir do Uruguai e não tivemos lua de mel.
Fomos morar por um tempo no negócio, comprei uma cortina e ali dividi o galpão em dois, de um lado o negócio e do outro nosso quarto. Eu me encarregava da produção e contabilidade, ela das vendas e relações públicas.
Teresa era uma mulher muito espiritual, devotíssima da Virgem Maria, a quem tinha como modelo de vida. A tal ponto que me ajudou em cada momento, não importa o quanto pesada fosse a cruz, ela seguia ao meu lado.
Nunca tive aspirações políticas nem fome de poder. Meu sonho era o mesmo que o dela, uma família baseada no amor.
Em 1960 nasceu nosso primeiro filho, Fernando; em 1962, Olinda; e em 1969, Óscar Darío, meu filho tão querido que faleceu há 35 anos. Teresa me ajudou a atravessar esse luto.
Quando meus filhos cresceram, construí uma casa de sonho para Teresa, com todas as comodidades. Queria lhe dar essa casa em gratidão por tudo, por ter começado comigo desde um galpão. E ela me disse que não queria se mudar, que era feliz em nossa casa de sempre. Teresa era uma mulher extraordinária, aproveitava das coisas simples da vida.
Ainda tenho suas cartas. Mesmo depois de casados ela continuava me escrevendo. Até me dedicou um disco com versos e poemas. A maioria de seus escritos está imortalizada em uma instalação que fiz de madeira e que pendurei no quincho de minha casa. São como quadros do que nos dizíamos frente aos demais, na privacidade do quarto e na cumplicidade de nossa relação. Quem visita a casa sempre passa na frente e pode se emocionar com sua letra manuscrita sobre papéis que se veem frágeis e escuros pelo inevitável passar do tempo.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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