Médicos neonatologistas renunciam ante a falta de insumos: "É nosso último grito às autoridades"
O sistema de saúde pública do Paraguai atravessa uma crise após a apresentação formal da renúncia em massa de médicos de distintos hospitais em todo o país.
A renúncia em massa envolve aproximadamente 70 intensivistas pediátricos sobre um total de 93 que exercem a profissão no país, o que representa a saída de 75% dos profissionais dessa especialidade no setor público, conforme sustenta a doutora Norma Ruiz do Hospital Nacional de Itauguá, que ofereceu um desgarrador testemunho sobre o esgotamento físico e emocional que sofrem ante a falta de recursos para trabalhar.
"Este é nosso último passo e nosso último grito às autoridades, não se trata de que nos abandonemos o barco, mas estamos cansados de estar nas trincheiras sem as armas para vencer. Nós somos de terapia intensiva pediátrica, e terapia intensiva pediátrica significa que entram crianças críticas, mal, que podem morrer, que lutamos contra o relógio. Então quando um não tem armas para lutar é mais difícil, mais desgastante, e estamos fazendo isto e agora já não damos mais", manifestou Ruiz em diálogo com NPY.
A profissional denunciou que a escassez de insumos básicos nas salas de urgências obriga os médicos a tomar decisões extremas no dia a dia para evitar desfechos fatais em pacientes em estado delicado.
"Não temos os insumos adequados e nossa especialidade não é que possamos esperar. A linha entre a vida e a morte é ínfima. Cada atuação nossa influencia sobre a vida e necessitamos o básico para isso", enfatizou Ruiz, apontando que a falta de provisões abrange elementos de custo mínimo mas vitais como seringas e soros de dextrosa a 5%.
A doutora relatou situações vivenciadas com a precariedade de recursos nas unidades de Terapia Intensiva.
"Contava eu a experiência que tive ontem entregando outra vez seringa e dizendo a uma mãe, preciso já porque tenho que gotejarlhe algo que se chama adrenalina. A adrenalina é para que seu coração não pare. E que me digam, não tenho dinheiro, quem compra? Nós compramos dextrosa a 5, insumos básicos, e não é a primeira vez que reclamamos", reclamou.
No que se refere às respostas institucionais das autoridades sanitárias, a médica expressou uma categórica rejeição aos planos a longo prazo que não solucionam as carências atuais de falta de insumos hospitalares.
"Não há uma proposta que te diga, segunda-feira te chega isto e isto. Tudo é projeto, tudo é futuro. Mas nós não vivemos o futuro, vivemos hoje, agora. Essa proposta que foi apresentada ontem é inadmissível. Quando me dizem insumos para 2027, e o que vou fazer eu este 2026 o resto dos dias?", recriminou Ruiz em relação às promessas orçamentárias pelo Poder Executivo.
A representante também apontou para o contraste entre a suposta falta de fundos para insumos hospitalares e o gasto público em outras áreas do Estado.
"Sempre com o discursinho de não há dinheiro e eles têm dinheiro para seus prazeres, já não nos mantemos na frente, já não somos escudo do Ministério", asseverou a doutora, criticando além disso a atribuição de recursos estatais em postos políticos sem méritos enquanto faltam insumos de baixo custo. Se tão somente retirassem o dinheiro dessa gente e nos comprassem as seringas, que eu torno a dizer, custa G. 1.500 cada uma e sei com propriedade", enfatizou.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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