Isolamento inaceitável de comunidades pela indiferença do Estado
Uma série de reportagens publicadas em Última Hora expõe a realidade vivida por uma comunidade que sobrevive no abandono, localizada a 80 quilômetros da capital.
A comunidade denomina-se Banco Yparaguaymi, conhecida como Banco'i, e está localizada em uma ilha na confluência das águas dos rios Yparaguaymi, Paraguai e Manduvirá. Neste local do Departamento de Cordillera vivem 22 famílias sem acesso a água potável e energia elétrica.
Viver sem o serviço de energia elétrica representa sérias dificuldades para os moradores.
Uma moradora, Juliana Pereira, relatava a maneira como resolvem o dia a dia, e o resultado assemelha-se a um guia de sobrevivência.
A vizinha explicou que para carregar um telefone celular utiliza quatro pilhas grandes. Dois cabos são conectados às pilhas alinhadas uma junto à outra, e essa conexão gera a energia suficiente para transferir uma pequena carga ao telefone celular analógico e conseguir que acenda. Para iluminar seus lares utilizam lampião, que funciona à base de querosene.
Como também não dispõem de água potável, utilizam a água do rio Manduvirá. Recolhem o líquido com um balde, e depois o passam para outro recipiente filtrando a terra; após ter assentado, trasladam a água para um kambuchi, um cântaro.
Em Banco'i não há geladeiras, mas enchem de gelo um velho congelador para conservar o peixe, mas dura apenas uma semana.
O dono do único armazém do lugar, José Martínez, instalou três painéis solares que abastecem um congelador; a energia do painel solar é a que permitirá à comunidade assistir pela televisão à Copa do Mundo de Futebol.
A comunidade de Banco Yparaguaymi também não possui acesso à saúde, como explicam seus moradores: para chegar a Banco'i deve-se passar por Puerto Olivares, depois fazer uma viagem de 30 minutos em pequenas embarcações ou através do Puerto Naranjahai. O posto de saúde mais próximo é uma Unidade de Saúde Familiar em Itapirú, mas se se tratasse de algo grave deveriam chegar a Arroyos y Esteros ou Caacupé.
Sem a possibilidade de usar um helicóptero, como o presidente da República, Santiago Peña, os moradores de Banco'i, a comunidade localizada a tão somente 80 quilômetros de Assunção, enfrentam verdadeiras odisseias para acessar dois de seus direitos, garantidos pela Constituição Nacional: saúde e educação.
É o caso do professor Cirilo Mazacotte, quien deve empreender uma aventura para chegar à Escola Básica nº 10.260 Banco Yparaguaymi.
Em uma motocicleta, o mestre deve atravessar estâncias, abrir pelo menos 14 portões, depois, dois quilômetros antes de chegar ao rio, deixa sua moto e caminha até Puerto Olivares, de onde tem meia hora de viagem pelo rio Manduvirá em uma pequena embarcação. Devido ao custo dessa viagem, o mestre permanece durante toda a semana na escola, local onde dorme sobre um colchão.
A escola possui duas pequenas salas de aula e uma cozinha, onde estudam 22 alunos: 17 crianças assistem ao primeiro e segundo ciclos em aulas multisseriadas, sob responsabilidade de Cirilo, e outros 5 integram a primeira geração de sétima série da comunidade sob responsabilidade da professora Silvina Rojas Ovelar, que também percorre um longo caminho para ensinar. Os alunos do sétimo ano aprendem à sombra de uma árvore e quando chove são trasladados para a capela.
Para as crianças de Banco'i é importante assistir à escola para aprender e porque também garantem receber um prato de comida; infelizmente, os alimentos do programa Fome Zero não resistem pela falta de refrigeração. Os mesmos pais das crianças, quando podem, contribuem para que esses alimentos de Fome Zero cheguem à escola.
Esta é uma crônica do esquecimento em que vivem esses compatriotas, pela indiferença do Governo, e de uma classe política que faz promessas eleitorais que raramente cumprem.
O Estado deve ter presença efetiva em Banco'i e prover a seus moradores...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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